Em 6 de março teve início a circulação do projeto Sabiás do Sertão: de Ponto a Ponto pelas cidades paulistas de Santa Fé do Sul e Jales, nas quais fomos contemplados com as parcerias dos Pontos de Cultura Balcão das Artes e Cultura Viva ‘Eneida Andrade Dias’ e Escola Livre de Teatro. Por meio de aulas gratuitas de vários instrumentos musicais e outras oficinas artísticas, o Balcão das Artes tem como objetivo resgatar a cidadania e a cultura regional, diminuindo o risco de vulnerabilidade social e gerando empregos e renda. Infelizmente, o espaço físico deste Ponto está fechado por falta de verba desde 2013, embora suas ações continuem. A Escola Livre de Teatro atua há 25 anos com ênfase na formação do ator e sua interferência no meio social, tendo em vista a popularização do teatro e o atendimento às necessidades profissionais nas mais diversas áreas que o teatro possa contribuir.

Leia abaixo os depoimentos dos artistas da Cia. Cênica sobre estes encontros.

Depoimentos

 

DEPOIMENTOS DA EQUIPE INTEGRANTE DO PROJETO:

Sabiás do Sertão: de Ponto a Ponto

 

Pontos de Cultura Balcão das Artes e Cultura Viva / Ponto de Cultura Escola Livre de Teatro
06 e 07/março/2015

 

ANTONIO BUCCA

 

SER TÃO NOSSO

Neste momento vos escrevo voltando pra casa depois da nossa primeira viagem pelo ProAC com o espetáculo “Sabiás do Sertão”, iniciando a nossa andança caipira pelo interior do Estado de São Paulo e começamos pela cidade de Santa Fé do Sul.

 

Certa vez ouvi dizer do poeta que melhor do que PARTIR é saber que temos pra onde VOLTAR. Porém, o que seria da nossa volta se no “espaço entre” a partida e a chegança não existisse a “andança” e as vivências que ficaram?

 

Partimos de São José do Rio Preto levando o sertão, nosso sertão interno, externo, exposto, escondido, esquecido, mostrado, porém ainda mais nosso, dentro de muitos, de vários, de tantos ou apenas dentro de mim, dentro de um único SER tão pulsante ou de 9 poetas rapsodos que de botinas nos pés saíram pelo interior por entre os figurinos, canto, falas, danças pra representar outros tantos seres tão simples e abertos, caipiras, que pisam na terra, que falam de gente, com gente, que cantam e contam o nosso povo para o próprio povo.

 

E por ser de gente, fomos construindo essa nossa andança por Santa Fé do Sul, rápida, passageira, porém forte, intensa, motivadora e acima de tudo inesquecível.

 

Entre as calçadas de música, coreto, igrejinha e poéticas esculturas de seresteiros, subimos o nosso mastro, erguemos a nossa lona, mesmo com a chuva que tentava derrubar, com o vento que se alastrava, ainda sim o circo se instalou e foi com fogo que a história deu inicio às 20h na praça da Seresta, e as luzes de artifício  ou da própria ribalta ficaram pequenas e apagadas perto das luzes que brilhavam nos olhos do público enquanto cantávamos o amor sertanejo.

 

E se contamos uma história contamos muitas, contamos várias, a nossa enquanto artistas que se mistura com os próprios artistas contados, ou com as histórias de tantos outros sertanejos que ali estavam, que buscavam na memória sua própria história nas vozes e vida de Cascatinha e Inhana. Tal experiência só fez acentuar que quando o artista usa a arte para contar o próprio artista, a arte se faz plena e em meio a risos e sorrisos, lagrimas e aplausos, o sertão se deu na Praça da Seresta.

 

Porém o mais gratificante ainda estava por vir, a troca, o contato gente com gente, o artista sem máscara e o povo comungando da mesma arte e a grandeza de poder retribuir ao povo a história que o próprio povo nos ajudou a construir.

 

Feliz daquele que passa adiante o que aprendeu e que aprende ainda mais pra passar adiante. E se teve troca, ela se deu tanto no nosso “balaio de prosa” com o público presente, quanto no workshop do dia seguinte, que fez intensificar ainda mais nossa visão de que o “simples” é bem mais intenso quanto imaginamos.

O nosso sertão estava em cada um de nós, no jeito de falar, dançar, ensinar, aprender, e o SER tão simples em nós se fez grande e pleno a partir do momento que usamos da nossa arte como instrumento de troca e transformação.

 

Então, posso afirmar que no “espaço entre” a nossa partida e a nossa chegança em casa, existiu uma linda e intensa “andança”, que nos deixou marcas a ponto de não deixar ser em vão a nossa passagem por Santa Fé do Sul e Jales. Trazemos de volta nossas malas cheias e nossos corações caipiras pulsantes, gratificados com essa experiência única, onde não existiu distinção entre o artista e o povo, simplesmente provando pra nós mesmos que o que nos une é o “sertão” que está em cada um de nós.

 

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CÁSSIA HELENO

Descreviver e transviver

Quando ouvi estas palavras pela primeira vez do nosso amado diretor Laranjeiras, fiquei vários dias pensando aonde elas se encaixavam naquele momento que eu estava vivendo. Claro que logo percebi que eu as estava vivenciando e quanto isto foi importante. Hoje, com o início de uma nova jornada volto a vivenciá-las. É muito gratificante saber que podemos reviver coisas e momentos. Para mim, esta apresentação e a oficina oferecida trouxeram-me de volta às raízes do meu sertão. Como é bom saber que o que me encantou um dia, hoje somos nós a encantar. O brilho que temos no olhar estava refletido no olhar de cada ser. Troca, aprendizado, transvivência.

Hoje o meu ser tão está em êxtase! Voltei ao meu ser tão só, a acreditar no meu sertão, ser tão somente.

E o seu ser tão, como está?

 

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CLARA RONCATI

 

Começo este com a citação do que já fora o início de Sabiás:

“Ergue-se a lona,

as luzes luzem, a alma transcende,

É o povo e a gente,

história de amor, de riso e de quase dor…”

 

‘Quase’está acrescentado aqui por não ser uma dor daquelas doídas, mas da dor lembrada, vivida, renomeada pelas saudades trazidas. Pela infância, pelos circos, pela história de cada um, de todos, de ninguém.

Posto e postado. Quem conhece a dupla vibra, quem não conhece pega o gosto de quero mais. Assim senti e senti-me.

O friozinho na barriga para iniciar o espetáculo fora quebrado por uma doce espectadora que tendo ouvido no rádio meu chamamento para o espetáculo trouxera sua própria xícara para o cafezinho, já com a consigna de que esta me ficaria de presente. Eis o riso, eis a dor das saudades de vó, mãe, pai, casa, sítio, gente assim, que chega chegando. Estabeleceu-se o pacto da história de amor. Confesso que cometi o crime de não mais conseguir separar a personagem da atriz, da dramaturga, tamanha a catarse iniciada com o ato, este e o de outros já ávidos pelo espetáculo que viria. Ele um veio, emocionou-me mais uma vez, emocionou os presentes. Foi um presente!

E então a poesia continua:

 

“… Num repente de lembrança,

A dança, a confiança, a música fazendo trança,

A esperança do circo criança

Entrando. Estando. Estranho. Entranhas.”

 

Nossas entranhas voltaram plenas de certezas estranhamente paradoxais.

Foi dado o primeiro passo para um projeto que sonhamos juntos e dividimos o sonho com a plateia. Praça pública e o silêncio imperou pleno em vários momentos. Em outros um canto coral acompanhava os atores num balanço de vozes e pernas. Lindo de se ver. De viver.

Poderia escrever a noite todinha sobre inúmeras sensações.

Finalizo retomando o Guimarães usado para meu trecho no workshop (o qual merece um relato em separado):

 

“De repente, por si, quando a gente não espera o sertão vem”. Ele veio para nós neste primeiro encontro do projeto.

 

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FAGNER RODRIGUES

 

Foi nas barrancas do rio, em Santa Fé do Sul e Jales.

Nossa primeira parada da circulação ProAC de “Sabiás do Sertão: de Ponto a Ponto” foi de muito amor e troca, todas as atividades lotadas, workshop, roda de discussão, espetáculo.

A participação de diversos Pontos de Cultura foi linda. E ver o poder da articulação regional… Sim, juntos somos fortes e organizados vamos longe! O projeto não é nosso, é de todos!

Voltamos modificados, aprendemos muito mais do que podíamos ensinar, ver uma praça em um silêncio profundo e um riso coletivo não é fácil, e quando vieram as lágrimas eu já estava em soluços! E os depoimentos? Ah não consigo explicar! Só me resta agradecer. Ao pipoqueiro que chegou devagarinho na praça, ao cachorro que latia baixinho no compasso da música que cantávamos, à chuva que esperou, ao alto falante da igrejinha do bairro que chamou o povo. E nesta semana não podia deixar de agradecer sem demagogias ao José Rico e à Inezita. Sim, é um espetáculo sertanejo e de raiz, tem viola, tem bumbo (sim tem bumbo), tem sanfona, tem café, tem sertão. Obrigado Cia. Cênica.

Obs. Tem dinheiro público aplicado com responsabilidade, dinheiro do povo, deve sim ser devolvido ao povo. nossa arte é de graça e é na praça.

 

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ÍCARO NEGRONI

 

Quando dizemos que no interior do nosso Estado temos talentos e pessoas capazes de levar arte e proporcionar mais cultura pra todos não é à toa. Tivemos uma bela recepção e um suporte muito bacana para que pudéssemos apresentar um grande espetáculo em Santa Fé. Tivemos (Cia.) o desfite de alguns adereços que compõem o espetáculo mas, isso não nos abalou em momento algum. Temos uma grande sintonia em cena, sempre atentos com o outro; nosso jogo se dá com simples olhares e gestos, é mágico. Em princípio, eu estava um pouco preocupado com o workshop, mas naquele lugar, aquelas pessoas emanavam uma energia do bem, energia de quem admira e quer aprender mais e mais e mais. Foi, dizendo o português claro: “do caralho”. Espero que nos outros lugares por onde vamos passar possamos dar e receber na mesma intensidade.

 

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JOSÉ MARIA GUIRADO

 

Ele mandou eu dizer: foi ótimo!

Eu falei: só isso?

Ele: foi muito bommmm! Põe aí.

 

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LAISA ANSELMI

 

Sobre a apresentação

Sobre aquele dia?… Nesse momento acredito que o que foi sentido é maior do que o que será escrito. Uma cidade acolhedora,um público/povo intenso, de olhar gritante, atento. Vozes que, mesmo tímidas, cantavam junto os sucessos jamais esquecidos. Um coro que foi ao delírio em risos e se calou num silêncio mútuo,cortante. Logo à frente a Cênica,vinda de longe, chamada por assovios e o cheiro do café,vinha em bando,em canto, nas batidas do instrumento que pulsava junto ao coração e ali se fizeram presentes,e vivemos! Vivemos juntos uma história de amor e dor contada pela delicadeza da memória,com a força de “ir embora”, voamos com nossos sabiás. Presentes ali, por trás dos figurinos e maquiagens também me lembro de gente forte, capaz de superar dores físicas,mentais,lembro do tempo, da preocupação, dos acordes,das luzes,dos aplausos, lembro que vale a pena. E no calor de um público acolhedor somos recebidos numa conversa informal onde depoimentos emocionados fizeram com que todo o elenco, sem dúvida, saísse com a sensação de um bom trabalho.

 

Sabemos que hoje, em mais uma cidade do nosso interior, vários senhores e senhoras puderam reviver o dito ”seu tempo”, matar essa saudade,puderam se emocionar, como vários jovens daquela mesma cidade puderam conhecer um passado nem tão distante,porém, pouco lembrando e também puderam se emocionar. E este talvez seja o maior “barato” da arte, ela não escolheu aquelas pessoas para estarem ali, mas despertou o interesse delas em estar, nós não escolhemos estar ali,mais ela nos levou pra lá. Graças à nossa arte,incansável,guerreada dia a dia que a arte destes Sabiás do Sertão, e de tantos outros por aí será sempre lembrada, na mente do “velho”, no imaginário do “novo”. Que com a mesma riqueza desta data possamos seguir contando e cantando o amor, o amor de um homem por uma mulher,de um público pelos seus ídolos, dos artistas pela sua arte, da Cia. Cênica pelos seus Sabiás.

 

Sobre o workshop

A maior honra para um artista é ser lembrado com carinho pela sua arte, por conseguir tocar pessoas que nunca havia visto! Naquela manhã isto ficou ainda mais claro, mais do que os exercícios dados houve trocas, não só de experiências, houve uma troca quase que extinta atualmente, a de olhares! Entramos naquele espaço e sem imaginar de lá saímos com mais inúmeros colegas de caminhada. Tudo foi extremamente válido, numa energia que pulsava e fez o relógio correr, nem vimos o tempo passar, mas o mesmo nos deixou marcas, mais de trinta novas vozes estavam nas mesmas cantigas,na força de tantas mãos ali unidas que se tornaram amigas numa nova ciranda. Percebi também a dimensão da arte, do artístico, deste trabalho como uma forma de unir,conhecer. Fica como foco essa força, o carinho e o aprendizado, ficam inúmeros depoimentos marcantes daqueles jovens que, de alguma forma viveram o nosso sertão, cumprimos a nossa missão!

 

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NETO CHIACCHIO

 

A ave popular, citada por diversos poetas como o pássaro que canta na estação do amor, voa até Santa Fé do Sul pra dar abrigo a uma nova revoada. Segundo uma lenda indígena, quando uma criança ouve durante a madrugada o canto do sabiá, será abençoada com muita paz, amor e felicidade. A ave de canto muito apreciado, que se assemelha ao som de uma flauta, doce como Inhana, a sabiá que alegrou os corações de crianças, jovens e adultos, que canta no alvorecer e à tarde cantou, encantou e levou preciosas migalhas ao público de Santa Fé que sentiu , lembrou , reviveu e se deslumbrou com um canto especial esquecido no tempo, o tempo que foi um dia, que sorriu pela simplicidade e pelo amor esquecidos nas velhas penas dos sabiás.

As aves que sobrevoavam a igreja da praça de Santa Fé estavam inseguras em descer até o lugar, com medo de não ter abrigo e afeto, achando que talvez não prosperassem. Ao contrário do que se imaginava o “inimaginável” aconteceu. Era de se esperar, mas não parecia ser de se acreditar, até que o bando, ninhal, passarada, melhor dizendo, a revoada que ali chegara levava consigo um sorriso e um astral tão acolhedores que se via em estampa o que pensavam. Estavam se sentindo a mesma espécie, alguns tristes que se podia ver de longe tão perto as lágrimas que escorriam em seus bicos, de felicidade por saber que em um outro tempo fez parte da mesma, e foi assim sem dizer nada que tudo nos disse e tudo lhes disse. Que Sabiás é de todos, de ontem, de hoje, mas principalmente das crianças que ouviram no entardecer a comunhão de revoada no canto dos “Sabiás do Sertão”.

 

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SIMONE MOERDAUI

 

Já tinha ouvido dizer da flor de cactos, da sua beleza, e nunca visto. Mas aí era noite, e ela piscou pra mim. Duvidei. De perto, toquei, vivi. É mesmo linda. Carne-em-flor, forte e guerreira. Também nunca antes, um Ponto de Cultura. Só de longe: leituras, experiências de amigos queridos. Mas aí era dia e noite de lutas, conquistas, parcerias e olhos de vaga-lume piscando pra mim. Não duvidei. De perto, toquei, senti, deixei-me afetar, vivi um pouco do que acredito ser sua essência. É mesmo lindo. Gente-em-flor, forte e guerreira. Êxtases.

Estes dois encontros se deram durante a primeira jornada do projeto Sabiás do Sertão: de Ponto a Ponto, em que a Cia. Cênica navegou entre o Ponto de Cultura Balcão das Artes e Cultura Viva, de Santa Fé do Sul, e o Ponto de Cultura Escola Livre de Teatro, em Jales. O enorme carinho com que fomos acolhidos por todos, sem exceção, é um presente. A Praça da Seresta onde aconteceram o espetáculo e a roda de discussão – uma homenagem em nome e esculturas a três seresteiros locais e que não, não está localizada no centro de Santa Fé – era uma Festa graças a um público envolvido, pulsante e amoroso, formado em parte por ponteiros vindos das cidades de Jales e Fernandópolis. Naquela noite, o Tempo não era aquele que costuma ser engolido pelos ponteiros dos relógios.

Na manhã seguinte, partimos para Jales a fim de realizarmos o workshop. Mais de trinta pessoas presentes de corpo, alma, tesão e coragem, dentre elas alunos da Escola e público espontâneo. Durante quatro intensas horas redescobri nossa força amorosa enquanto grupo e a necessidade permanente de fomentarmos, entre nós mesmos e os demais, a formação de artistas conscientes, investigadores, críticos e socialmente responsáveis por suas escolhas. Naquela manhã, o Espaço não era aquele que costuma ser demarcado por nossos próprios corpos ou arquiteturas.

Foi (e continua sendo, em mim) uma bela experiência de troca e compartilhamento de saberes, fazeres e viveres, na qual aprendi de coração que, apesar dos corres massacrantes do cotidiano, próprios deste sistema desigual sob o qual tentamos reinventar nossa existência, não se pode esquecer por um só instante que “no circo do avesso que é esse mundo, só mesmo com muita poesia, pé no chão e mãos dadas, pra seguir adiante”. Amém.

 

 

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VANESSA PALMIERI

 

06 de março de 2015

Chegamos a Santa Fé do Sul para a nossa primeira apresentação pelo ProAC. A expectativa é enorme, porém o nervosismo maior.

Hoje estou com muita dor, travada da coluna. E por isso me sentindo muito mal e com medo de prejudicar o espetáculo. Mas me sentindo muito amparada, todos estão sendo muito pacientes e carinhosos comigo. Não quero decepcioná-los. E ainda por cima tem a roda de discussão que me deixa nervosa, por ter que ficar sentada, e o workshop, no qual não poderei demonstrar o exercício. Mas vou dar o melhor de mim.

07 de março de 2015

Hoje é o dia do workshop. Ontem consegui fazer todo o espetáculo. Mesmo me poupando de algumas marcações, acho que acabei abusando. Fato que percebi logo após o término do espetáculo. Travei. E hoje de manhã sozinha no rancho, enquanto todos estão ministrando o workshop, eu estou deitada escrevendo as minhas impressões na cama, travada e com um sentimento de impotência enorme.

Impressões

Antes de o espetáculo começar o nervosismo era palpável. Faltando uma hora para o espetáculo começou a chover, chuva fina, mas cheia de irritação. “Leva pra lá”, “Tampa isso”, “Onde está minha roupa base?”, “Cadê meu chapéu?”, ”Esqueci minha maquiagem”. Nossa, ninguém respirava paciência. Às 20h fizemos a roda. Rezamos. Eu sentia a tensão da estreia. Mas depois do “Contemos uns com os outros. Merda!”, eu só tinha uma certeza, daríamos conta. Já estávamos em sintonia.

O espetáculo começa. A partir da cena dos dois corações sinto que começamos a nos divertir e respirar o espetáculo. Sob olhares atentos, surpresos, agradecidos e risadas calorosas de uma plateia maravilhosa, que entrou na história, cantou, riu, chorou, reclamou traição e engoliu em seco a morte da heroína no aplaudido beijo de amor. As vozes ao meu lado embargaram uma a uma. Era um pranto cantado. Nem a dor que eu sentia foi capaz de me fazer perder aquela vivência, aquele sentimento lindo de reviver várias vezes o mesmo momento que sabemos de cor e salteado e ainda sim, sentimos, pulsamos, choramos e lamentamos pelos dois. O aplauso final veio como um abraço apertado. Foi lindo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5 Comments

  1. Claudia Borges 16 de março de 2015

    “Cada dia descobrir o melhor de si mesmo no encontro com os outros” (Sotigui Kouyaté)
    Para falar de afetamentos, é preciso sentí-los, é preciso sabê-los, é preciso experimentá-los com coragem. São poucos os que entenderão como foi difícil ler os depoimentos das atrizes e dos atores da Cia. Cênica, sobre a passagem deles por Santa Fé do Sul e Jales nos dias 6 e 7 de março com o espetáculo Sabiás do Sertão. São poucos mas muito verdadeiros, aqueles que ao lerem, irão se emocionar demais da conta como eu agora que até pra escrever está difícil, de tão marejados que estão meus olhos. Também são poucos os que conhecem a luta pessoal e diária e muito cansativa para que, embora fechado, o Ponto de Cultura de Sta Fé não morra na história cultural da região.Igualmente poucos são aqueles que se entristecem sabendo que existem equipamentos e principalmente instrumentos depositados em uma casa, sem uso, sem toque, sem pulsação e sem alma. Essa talvez, seja a parte mais sufocante e triste para mim. Esses poucos de que falo são aqui da cidade e são os que me conhecem de verdade. E eles também se confundem entre Os MUITOS que me entenderão, lendo tanto os depoimentos quanto o que estou escrevendo agora. Os meus MUITOS, estão espalhados por nossa região, por nosso sertão do noroeste paulista, pelo interiorrrZÃO, pelo interior, pela capital, pelo litoral, por outras barrancas, entre os Griôs,pelo cerrado, pela caatinga, pelas aldeias indígenas, pelo planalto, pelos quilombos, pelas quebradas, pelas favelas, pelas baixadas, pelo BRASIL! E esses, só esses que abençoados pelo encantamento de fazer parte do Programa Cultura Viva e do Projeto Pontos de Cultura, sentirão lá no fundo, aquele alento vibrante, pulsante e latente de SER-TÃO encantados! Agradecida à Cia Cênica por trazer tanto encantamento e pela coragem em desesconder o nosso “ser-tão”. Agradecida às minhas filhas companheiras de palco, de vida, de luta e de sonhos. Agradecida aos ex alunos do PdCultura Balcão de Artes e Cultura de Sta Fé e agradecida aos meus alunos e professores do PdCultura Escola LIvre de Teatro de Jales. E infinitamente agradecida por ter sido tocada viceralmente pelo afeto de ” SER-TÃO” encantada pelo projeto Ponto de Cultura.

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  2. MAURICIO 16 de março de 2015

    BOM… COMENTAR SOBRE O GRUPO CIA CÊNICA…É DE FATO FÁCIL, POIS DESDE O PRIMEIRO ENCONTRO FOI AMOR A PRIMEIRA VISTA, PELA HUMILDADE, DE VER ATORES COM UM GRANDE E MARAVILHOSO TRABALHO DE PALCO E COM UMA PEÇA DE UMA GRANDE IMENSIDÃO EM TRAZER-NOS AS RAIZES DO INTERIORZÃO COMO DIZEM, MAS REALMENTE É O INTERIORZÃO QUE ELES CONSEGUIRAM TOCAR EM MINHA ALMA, DE VER O QUANTO É GOSTOSO ESSA TROCA DE EXPERIÊNCIAS, E O QUANTO TEMOS ENRAIZADO DENTRO DE NÓS QUE MUITAS DAS VEZES NÃO COLOCAMOS PARA FORA,.

    É CIA CÊNICA, VOCÊS ESTÃO DE PARABÉNS, QUE DEUS OS ABENÇOEM EM CADA APRESENTAÇÃO EM CADA PONTO DE CULTURA, QUE MUITOS POSSAM DESPERTAR E ABROCHAR ESSE INTERIORZÃO DE DENTRO DO SEU SER ATRAVÉS DE CADA APRESENTAÇÃO VOSSA, E QUE EM CADA WORKSHOP ESSAS RAÍZES VENHAM A SE RAMIFICAR MAIS E MAIS FORMANDO UMA GRANDE REDE CULTURAL.

    LEVEM SEMPRE ESSA EMOÇÃO DE FAZER E MUITO BEM FEITO CULTURA E DE MUITO ALTO NÍVEL AONDE FOREM, EU SÓ TENHO A AGRADECER A DEUS E A VOCÊS, POR TER O PRIVILÉGIO DE FAZER PARTE DESSES MOMENTOS QUE PASSAMOS JUNTOS E QUE SEJA O PRIMEIRO DE MUITOS…..

    UM GRANDE ABRAÇO A TODOS…..

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  3. Deiner Urzedo 17 de março de 2015

    Foi lindo tudo que eu vivi em poucas horas com vocês, as experiencias trocadas, o carinho e o amor que vocês tem pelo teatro e pela cultura brasileira. Vocês me conquistaram, vai ser amor eterno… s2

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  4. Tulio Couto Balestreiro 17 de março de 2015

    Na noite do espetaculo minhas espectativas foram mais que atendidas.Foi emocionante,encantador,divertido ,uma imagem que guardarei pra sempre comigo.
    Uma historia contada através de música,dança ,poesia .Uma historia que eu e minha geração nao teve contato ,e ao assistir Sabias do Sertão (que não é uma narrativa )mas que tem tudo pra encantar e fazer o publico querer entrar naquele mundo ,conhecer aqueles personagens ,e ate o elenco que deu vida a tudo.
    E ter essa oportunidade de ,logo no dia
    Seguinte conhecer mais de pertinho o processo,como tudo começou ,aprender com o elenco e trocar experiencias foi algo que me fez muito feliz e posso dizer que me re-apaixonei pelo Teatro,pela troca ,pela arte em conjunto ,pelo calor humano.
    Provamos naquela manha que não é preciso estar nos grandes centros,para fazer arte ,arte que encanta ,que pulsa,que ensina .
    Obrigado a todos da Cia Cênica ,e que vocês encantem por onde passaram ,assim como nos encantaram,assim como me encantaram.

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  5. Jose Vitorino de Souza 28 de março de 2015

    A apresentação: Um espetáculo tecnicamente muito bem cuidado. Percebe se na atuação das atrizes e atores, que o trabalho de busca e pesquisa para criar e interpretar seus personagens é incansável, obstinado e disciplinado. Nunca consegui determinar ou mensurar exatamente qual o peso ou percentual da técnica no sucesso de um espetáculo, mas me arrisco dizer que se passar de 50% não é muito. É necessário, além da técnica, estar encantado pelo “trabalho”, deixar se (como sempre diz nossa amiga Claudia) afetar pelo que esta produzindo e isso percebe se também, a julgar pelo nível de encantamento produzido na plateia. Há também, na minha modesta opinião, um terceiro elemento que torna esse “trabalho” muito apreciável, que é o fato de falar de um tema nosso, de nossa cultura, de nossa gente e que necessita cada vez mais ser resgatada, valorizada e preservada.
    A Oficina e o Projeto “Sabiás de Ponto a Ponto”: Tudo o que foi dito acima referente à busca da técnica perfeita, o gosto em fazer, a busca pelo afeto e o encantamento; só é possível surgir e crescer, quando eu coloco esse meu saber em comum, quando eu compartilho com os outros as minhas experiências. É isso, que no meu entender, acontece quando um projeto como esse é aprovado e começa a circular. Compartilha experiências quando vai para uma praça “PÚBLICA” apresenta, e TODOS podem ver. Compartilha experiências quando vai para um Ponto de cultura de teatro e Musica (Ponto de Cultura Escola Livre de Teatro e Ponto de Cultura Balcão das Artes) e conversa, dialoga, desenvolve atividades com jovens, adolescentes e adultos ávidos por conhecer essa arte e o processo de montagem de uma companhia de Teatro. Em fim, como é dito no Espetáculo, “Nesse mundo do avesso o que agente precisa é ter pé no chão, muita poesia e mão dadas”.
    Parabéns a Cia Cênica e a todos que participaram e participarão deste encantador projeto.
    José Vitorino de Souza , Ator e Diretor no Ponto de Cultura escola Livre de Teatro.

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