O Ponto de Cultura Caiçaras faz parte de um programa colaborativo de registro, valorização e disseminação do patrimônio cultural de Cananéia, propondo a construção de ações interdisciplinares elaboradas e realizadas coletivamente, respeitando-se as demandas e a dinâmica das comunidades e fortalecendo o desenvolvimento de programas educacionais e culturais participativos. Praças e vias públicas, centros comunitários, escolas da rede pública de ensino, embarcações e diferentes ambientes naturais, dentre outros, são lugares passíveis de receberem ações cujos resultados possibilitam a promoção de um rico diálogo entre saberes visando a potencialização da ciência, da cultura e da educação para mudanças socioeconômicas duradouras, as quais poderão servir de modelo e/ou serem incorporadas em políticas públicas regionais. A Cia. Cênica teve o prazer de presenciar uma das ações do Ponto junto à comunidade local: uma roda de conversa sobre a atual situação da água pública no Brasil e a exibição de três belos filmes. Além de prestigiar o Museu Municipal da cidade, a Cia. passou pela incrível experiência de visitar o Quilombo Mandira, que recebe o apoio do PdC Caiçaras e de outras instituições. O ponteiro Fernando Oliveira e os quilombolas Nei, Rosana, Josi e Seu Chico nos apresentaram um pouco das atividades desta pequena comunidade, cuja economia está assentada sobre o turismo de base comunitária e sobre a extração e o manejo da ostra, mas também conta com a comercialização do artesanato produzido por 15 mulheres.

Leia abaixo os depoimentos dos artistas da Cia. Cênica sobre estes encontros.

Depoimentos

 

DEPOIMENTOS DA EQUIPE INTEGRANTE DO PROJETO

Sabiás do Sertão: de Ponto a Ponto

 Ponto de Cultura Caiçaras

 19 a 22/março/2015

ANTONIO BUCCA

NAVEGAR É PRECISO!

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa que certa vez aprendi com o mestre Laranjeiras, um dos diretores do nosso “Sabiás do Sertão”, e só em nossa andança por Cananéia-SP pude ter a certeza que de Fernando Pessoa estava certo ao dizer que:

“… Navegar é preciso; viver não é preciso…”

Tive pra mim durante estes dias o espírito desta frase, onde o criar e o recriar vão além do viver, conhecer, se entregar, desbravar, se abrir, trocar e aprender. O pequeno viver se transforma em uma grande experiência imprecisa, onde o artista empresta o seu corpo como lenha para aquecer o fogo da imprecisão desse delicioso viver.

E se navegar é preciso, afirmo que foi preciso; navegamos por entre os golfinhos, ilhas, barcos, canoas e nosso porto seguro mais uma vez foi o povo, foi gente, crianças, homens, mulheres, caiçaras que fazem a diferença na luta por um mesmo ideal; uma nova e linda troca com um povo que me mostrou que pequenas ações podem mudar o meio onde vivem, seja na luta pela preservação da águas, da cultura, do meio ambiente, da manutenção das comunidades tradicionais, dos quilombos, dos bens naturais, enfim, uma aula de cidadania que me faz voltar ao poeta e afirmar que a nossa Navegação por entre as águas de Cananéia foi uma ciência exata.

Mediante tantos exemplos de vida que pudemos ver, volto com a certeza que a imprecisão do viver dentro de mim pode começar “Agora” e jamais deve terminar enquanto lutar pelo bem comum!

 

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CÁSSIA HELENO

Mais uma vez isso torna acontecer:

O brilho nos olhos, o encantamento, o êxtase de emoções. Como é bom ter, ser essa troca de sentimentos.

Nossa apresentação em Cananéia em parceria com o Ponto de Cultura Caiçaras foi rica de sabedoria, prazeres e trocas. Lugar lindo que faz o meu ser tão mais rico e nobre.

A conscientização, o cuidado para com o outro e com a natureza é digno de se ver, de sentir, de ser… ser tão nobre

Enquanto o nosso ser tão é seco, o ser tão deles é molhado. O encontro dos Caipiras com os Caiçaras foi lindo, mágico.

Dizem que pólos opostos se atraem e a atração foi mútua… Porque o que tem que ficar, fica!!!

 

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CLARA RONCATI

Definição: sensorial

Diz a canção: “São as águas de março fechando o verão…”. Inicia-se o outono. Chuvas. Água. Águas. Paixão. A água abundante opõe-se a nosso sertão. Mas não a tão ser. Clímax vários. Elenco dois: visitar a comunidade quilombola e assistir ao filme “Fonte das Mulheres”, junto à população, na Casa Caiçara.

A Casa era o templo – portas abertas em meio à praça rodeada por atrações diversas, barzinhos, plena sexta à noite, e a sala lotada por homens, mulheres e crianças, todos comungando no templo da conscientização. Lindo de viver, de ser tão simples assim.

A metáfora desgastada ‘beber na fonte’ encaixa-se com perfeição à vista paradisíaca, à simplicidade e riso manso dos caiçaras. Quereríamos lá permanecer pra ouvir mais, mais ser. Rever. Reviver. Rever as comunidades, reviver as possibilidades. Existem pessoas que, à revelia de ações externas e esvaziadas de panelas, cores e bandeiras, está plantando uma sementinha de consciência coletiva, verdadeira e transformadora. Pessoas que se unem em torno de um ideal real e comum: manter a sua/nossa mata. Preservar a sua/nossa cultura, biodiversidades, pluralidades.

No Quilombo Mandira, Seu Chico, Ney, meninas artesãs, ou crianças brincando de casinha, afundados na mata, fundados de saberes plenos. Nossas escolas não conseguem e tão cedo não conseguirão o aprendizado que ali se tem.

Diz o nosso Sabiás “Este é o ponto, a história em cena, a cena na história”. E assim foi –  o Ponto de Cultura na cena, nós em cena.

E lá encenamos para uma multidão, num sábado à noite chuvoso, com crianças, jovens, velhos, caiçaras e turistas misturados e dizendo-se encantados. Mal sabiam eles que o encantamento por eles fora dado quando lá pisamos. Um pedacinho grande de quereres lá deixamos, sentindo-nos pequenos demais pra grandeza daquela gente que não está ‘brincando de ser’, que é. De fato e assim.

 

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FAGNER RODRIGUES

De Ponto em Ponto, seguimos nessa teia de tantas cores e, cada vez mais, tenho certeza que a construção coletiva e os corredores culturais serão e são nossa saída para tanto impedimento. Partimos do interior ao litoral, o encontro da terra com a água, formando um lindo jarro de barro que volta cheio de saberes para matar nossa sede em tempo de secas que castigam nosso Estado. Sabiás do Sertão tem levado a chuva por onde passa, mas curiosamente ela vem logo depois do espetáculo que, durante sua encenação, é abençoado por uma garoa fina. A cena de santa Fé do Sul tornou a se repetir em Cananéia. Atravessamos a balsa para um lindo encontro entre caipiras e caiçaras, e se faz presente a arte na sua forma mais genuína, nossas raízes ancestrais: fomos visitar o quilombo Mandira e, logo depois de um banho gelado em um rio cristalino, lembrei o quanto minhas raízes se fazem presentes em minha arte. Recordei do meu avô “Mané Capeta”, que era radialista, de minha avó “Sanduca”, benzedeira da criançada, de meu pai Edilson, cantor de tantas maluquices e sonhos que o enforcaram, de minha mãe que parecia pimenta dedo de moça, “Deusa” que pariu aos 15. Que orgulho da “Vó Zina”, que criou quatro filhos e um bocado de sobrinhos depois da morte do meu avô “Luiz Capivara”. Obrigado Cananéia por me fazer lembrar quem sou, de onde vim, e para onde vou. É dessa gente que quero falar, é o meu povo que quero cantar. Acabo de escrever essas linhas sinceras e recebo uma mensagem de um pai, Helio Ricardo Junior, que diz: ESTIVE COM MINHA FAMÍLIA NESTE FIM DE SEMANA EM CANANÉIA E PRESTIGIAMOS O ESPETÁCULO SABIÁS DO SERTÃO NA PRAÇA DA THEODOLINA. FOI INCRÍVEL A ENCENAÇÃO EM PLENA PRAÇA AO AR LIVRE E OS OLHARES DO POVO CAIÇARA. MEUS FILHOS NUNCA MAIS ESQUECERÃO DAQUELE MOMENTO….

Eu certamente não esquecerei… ao contrário, de muito me lembrei.

 

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GLAUCO GARCIA

Quando “pousamos” em Cananéia encontramos um lugar repleto de sua própria história e lindo por natureza. Suas fachadas refletem outro tempo, sua igreja central rústica e simples, nos transporta para um “outro” Brasil, talvez mais brasileiro.

A apresentação não podia ser mais linda!

Fomos acolhidos na charmosa Praça Tiduca, uma merecida homenagem a uma mulher que foi um patrimônio cultural da cidade. Essa praça é resultado de um trabalho de ocupação cultural do Ponto de Cultura Caiçaras em parceria com a população cananeense, então apresentar lá teve um gostinho especial por isso também.

Aos poucos o tímido público tomou os lugares para ver a apresentação do “Sabiás do Sertão” e como mágica público, praça, Sabiás e canção formaram um só corpo, um só organismo, pulsando em uma só cadência que foi orquestrada por uma chuva fininha que serviu para dar mais charme ainda à apresentação.

As trocas continuaram com a experiência de conhecer a comunidade remanescente de quilombo “Mandira” que sobrevive do extrativismo de ostras basicamente e do artesanato. Como a arquitetura de Cananéia, essa comunidade também nos mostrou um povo cheio de história, com suas tradições bem estabelecidas com contornos fortes, um povo bem resolvido e bem colocado em seu meio. A comunidade vai se adaptando à modernidade e tira do mangue sua subsistência.

Mas foi mesmo na oficina que tivemos a confirmação daquilo que eu já havia desconfiado. A ÁGUA!

Isso mesmo, a água é o núcleo ativador de quase todos os níveis de sociabilidade do cananeense.

No dia da oficina caiu um pé d’agua daqueles que parece que o céu vai desabar e isso naturalmente prejudicou a nossa oficina porque tivemos uma aderência menor dos participantes, mas mesmo assim aproveitamos o tempo para conversar com os que apareceram.

Logo percebi a importância da água para a cultura caiçara e percebi também a própria cultura caiçara. O caiçara é o sertanejo da água, ao invés de tocar gado ele toca peixe; ao invés de carro de boi ele usa barco; ao invés de pasto, água; ao invés de terra, mar.

O Sertão somos todos nós!

 

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LAISA ANSELMI

No último fim de semana a parada Cênica atracou em Cananéia, litoral paulista, numa realidade um pouco “diferente” do nosso interior. Vimos serem trocadas as inchadas pelas redes de pesca, as estradas pelas águas e os carros pelos barcos. Conhecemos um lugar onde a natureza é de fato generosa.

Na noite de sábado, na rua do artesão, às 20h, estava marcada a cantoria. Os Sábias iriam se apresentar. Como combinado, ali estávamos, numa união de mãos e força que fizeram nosso circo se armar depressa enquanto o Sol ficava tímido e sumia. Rapidamente já era possível observar os olhares curiosos de quem passava por ali.

A noite chega e com ela o nervosismo, ”- Ainda dá tempo de passar aquela música?”, ”- Preciso maquiar”, ”- Essa troca é na coxia direita!” e, quando as coisas já pareciam organizadas, pela luz do poste era possível ver o forte sereno, e as mesmas mãos que se uniram para erguer o circo, tiveram que se unir para que ele não molhasse. Lembro-me das frases, algo como ”- Cubram a mesa de som!”, ”- E agora, se não parar?”, ”- Rápido gente, os caixotes não podem molhar!”. Apesar da considerável tensão que se formou, seguimos o dito ”O espetáculo não pode parar”: ali mesmo nos aquecemos, nos preparamos e como que por permissão divina a água parou e do céu só vinha a certeza de que iríamos contar e cantar nossos Sabiás.

O público chegou, todo o coberto voltou ao seu lugar e ali as luzes do nosso picadeiro brilharam nos olhos de quem se sentou pra cantar com a Cênica. Foi linda nossa força, nossa generosidade uns com os outros e, sim, foi um lindo espetáculo!

 

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NETO CHIACCHIO

A exausta viagem já se compensa de primeiro encontro com um morador local que pescava no embarque da balsa rumo à ilha comprida, em uma troca de saberes musicais e regionais. Sr. Ribeiro nos recebeu de coração aberto como se parte da balsa fosse a casa dele, que se tornara de fato de todos.

Tímido acolhedor sereno Fernando, do Ponto de Cultura Caiçaras, nos proporcionou um magnífico encontro, que mais me parecia um reencontro na comunidade Quilombola. Ali fiquei contente e me fez repensar ver que vinte famílias, cerca de noventa pessoas, seguem suas tradições e costumes desenvolvendo suas ações, pesquisas e artesanatos, resgatando sua cultura, ou melhor, mantendo-a na medida do possível, e conservando seus patrimônios históricos.

O cenário crítico da água tenta ser combatido com movimentos de conscientização do desperdício, pensando no amanhã. Já diziam nossos avós que “sabendo usar não vai faltar”, e isso se torna cada dia mais atual, assim como a necessidade de utilizar com sabedoria o que temos. Presenciei uma “semente” sem interesse financeiro sendo plantada e implantada em um encontro no centro de Cananéia , aberto pra quem quisesse ir, entrar e sair. Pude ver essa semente germinar e tentar criar forças, mesmo que com poucas raízes ainda, e vi muita determinação para que crescesse com sabedoria na vitalidade da quantia d’água necessária.

No sábado, dia 21 de março, o que antecede o dia mundial da água parecia querer tomar prática, e uma mistura de sentimentos que me fazia feliz pela chuva abençoada que se aproximava e preocupado, pois o “Chuá Chuá” ainda não havia de ter chegado. Antes mesmo do cheiro do café que contagiaria e embarcaria os amigos que iriam prestigiar e conhecer, em quinze minutos vivenciei a chuva se fazendo presente e o próximo presente se tornando passado mas, como nada acontece por acaso e o redundante há de fazer sentido, por forças que talvez desconhecemos, a multiplicação se põe em prática e, desta vez, não da chuva e sim dos cananeenses.

O cheiro do café então contagia, o presente faz sentido no passado e o passado faz sentido no presente anunciando a quem estava às margens da ribalta para embarcar dentro dela. Parecia inevitável, “a história de amor de riso e de dor” toca os corações e os passarinhos se tornam um só em meio a muitos, levando consigo o repensar e o prazer de viver. Assim voltei de Cananéia, sem querer voltar.

 

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SIMONE MOERDAUI

Antes:

Mar e sertão

Sertão e mar

Que bicho é que vai dar?

Sempre:

Mar, casa minha. Lá quase nasci, cresci, (en)tornei-me. Águas de mim, que filtram e confortam meu sentir sobre o mundo.

O mar é minhas funduras. Meu de dentro, o mar.

Onde moro, sertão. Terra dura e seca na qual preciso enterrar minhas unhas e cavar, cavar, colocar-me incansavelmente em movimento. Aqui, debaixo de um sol duro e seco, quanto mais me afundo buscando as raízes, mais saltam meus olhos, suplicando outras paisagens.

O sertão é paradoxo onde me reinvento e sou reinventada.

Até que:

Pousamos.

Enquanto ele nos esperava, fingia que pescava. Ou os contrários, todos os possíveis. O fato é que logo, num susto boquiaberto e risonho, fez-se a encantaria: a vara de pescar virou violão e, tendo por coro um cardume de sabiás, Seu Ribeiro decantou Cascatinha & Inhana.

Daí por diante, foi encantaria pra todo canto: Casa Caiçara, Praça Tiduca, Escola Yolanda, Ilha do Cardoso, Quilombo Mandira… um sem-fim.

E deu-se o bicho homem.

 

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VANESSA PALMIERI

Cananéia, um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica intocada da Costa Brasileira. A impressão que dá ao vê-la é a de voltar ao passado. Casinhas sem portão, janelas pra calçada, paralelepípedos formando caminhos, vento molhado. Gente com sorriso nos olhos e história na boca. Uma gente forte, engajada, que luta pelos seus ideais, pelos seus bens, pela sua terra, pela sua água.

Em um espaço com janelas e portas abertas no centro da cidade, vimos a comunidade cananeense discutindo a importância da conscientização e preservação da água, provocada pelo ativista Fernando Oliveira. Foi como me visitar pelo lado de fora. Rever minhas ideologias, minhas raízes, minhas inquietações, meu eu adormecido.

Na rua do artesão montamos nosso circo. Ao lado do busto de Theodolina Gomes, personalidade histórica da cidade, carnavalesca e cuidadora dos jardins, vimos o publico tomar conta das cadeiras, dos bancos, dos degraus e do chão da praça. E esse público riu, chorou, aplaudiu uma, duas, várias vezes. Foi mágico. Já não existia a divisão elenco e plateia, nossa história e a história local. Era uma só, era troca, era ganho, era uma comunhão. Até a chuva se fez presente no momento em que cantávamos “Chuá Chuá”. Não teve uma só pessoa que não se ateve à feliz coincidência. E a chuva esperou, e nos saudou quando acabou o espetáculo. Lavando nossa alma, almas cheias de contentamento de dividir e somar com aquela gente. De podermos fazer e levar adiante o que acreditamos e amamos. De podermos ser o que somos.

A Seu Ribeiro, Seu Orlando, Fernando, Cleber, Chico Mandira, todos da comunidade Quilombola Mandira e tantos outros, meu profundo agradecimento pela troca, pelo acolhimento e generosidade de compartilharem o que há de mais rico nesse mundo, as suas histórias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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