O projeto Casa das Artes é a sede da Associação de Cultura e Arte de Ribeirão Preto e tem como intenção proporcionar um espaço para estudo, pesquisa e integração das artes em geral, levando a oportunidade do convívio artístico para a comunidade através de cursos e oficinas, espaço de criação para grupos e programação cultural diversificada e acessível. Fundada em março de 2010 imediatamente o espaço implantou um projeto de oficinas voltadas à iniciação em artes para adolescentes, projeto que no mesmo ano foi aprovado em edital para compor a Rede de Pontos de Cultura de Ribeirão Preto. De 2011 a 2013, como Ponto de Cultura, a Casa das Artes proporcionou mais de 50 oficinas de iniciação para adolescentes e oficinas técnicas para artistas. Neste período também apoiou diversos projetos culturais da cidade e passou a receber outros grupos para ensaio, tornando-se um coletivo artístico que hoje sedia diversos grupos profissionais. Atualmente é sede artística dos grupos Cia. A DitaCuja, Teatro de Caixeiros, Cia. Tertúlia, Teatro dos Andarilhos, Cia Além-mar e Press Start Arte-entretenimento e do grupo estudantil Cia. Argáponis, formado por ex-alunos das oficinas e cursos da Casa das Artes.

Fundadora da Casa das Artes, a Cia. A DitaCuja nasceu com o não-nome de Cia.Teatral “Ainda sem Nome” em fevereiro de 2007 e imediatamente iniciou seu trabalho de pesquisas a partir do estudo de poesia, filosofia e técnicas de corpo e voz. Em maio de 2012, comemorando cinco anos, o grupo foi batizado, passando a atender pela graça de Cia. A DitaCuja. Na bagagem estão as peças autorais Roleta Russa, Florisbela e seus dois pretendentes (rua), Wine Merewá, as contações do Cantinho brasileiro e das Histórias para contar na noite de Natal, Willi in propriedade, Artes de Branca Flor, Dom Chicote Mula Manca e seu fiel escudeiro Zé Chupança (rua) e a leitura encenada Os Dois Cavalheiros de Verona.

A Cia Teatral Boccaccione surgiu em 2006 com a estreia do espetáculo “O Velho da Horta”, adaptação da obra homônima do dramaturgo português Gil Vicente, para o teatro de rua. Foi a partir deste espetáculo que a Cia. viu a necessidade de se aprofundar na pesquisa acerca da linguagem do teatro popular: com músicas executadas em cena, teatro com máscaras e outros recursos que pudessem aproximar a comunicação entre artista e público. Desde então a companhia desenvolveu diversos trabalhos, passando do lúdico infantil ao grotesco da linguagem de bufão. Deste percurso de estudo e aprofundamento de linguagens, realizados diariamente em ensaios e treinamento, o Boccaccione estreou ao todo 21 espetáculos, durante seus 7 anos de atuação.

Leia abaixo os depoimentos dos artistas da Cia. Cênica sobre estes encontros.

Depoimentos

 

DEPOIMENTOS DA EQUIPE INTEGRANTE DO PROJETO

Sabiás do Sertão: de Ponto a Ponto

 Ponto de Cultura Casa das Artes / Cia. Boccaccione / Cia. A DitaCuja

01 e 02/maio/2015

 

ANTONIO BUCCA

Família que não se dissolve é assim, a gente se encontra, se abraça, fala a mesma língua, em uma só voz, uma só classe que luta pelos mesmos ideais, que tem os mesmos objetivos, e se reconhece apenas pelo toque.

Eita coisa boa essa família “Bocaccione” e “A DitaCuja” de Ribeirão Preto, que mais parece “nóis memo”, por ser igual a “nóis memo”, que se mistura na vida, na obra, na arte,  tal qual a gente.

Então, não teve como não ser marcante essa andança por Ribeirão, pois desde a recepção tudo foi de extrema delicadeza e cuidado, artistas que fazem e acontecem, que entendem a necessidade do outro e estão prontos a ajudar.

Fomos, apresentamos, trocamos, rimos, choramos, nos divertimos, mas acima de tudo aprendemos e reforçamos a ideia de que um artista sozinho é só mais um, porém todos juntos somos uma força indescritível pra lutar pela nossa classe, pela nossa arte!

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CÁSSIA HELENO

”Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho …voou,voou,voou,voou….”

Assim vamos voando, de galho em galho, de ser tão em ser tão… e nesses encontros e desencontros nos deparamos com Ribeirão Preto, onde fomos muito bem recebidos pela Cia de Teatro Boccaccione – muito acolhedores – uma troca de energia e de territórios muito fascinante.

Nossa apresentação dessa vez foi no Parque Maurílio Biaggio, onde as pessoas que ali estavam para desfrutar de seu dia de folga-descanso, pois era  feriado (01/05), pararam para nos prestigiar-apreciar; isso me faz sentir  realizada e certa da escolha que fiz para minha vida, para meu ser tão.

Durante a oficina as energias ali concentradas fluíam mutuamente, um ser tão tentando se encaixar no outro. Então me deparei com a história da Sinhá Junqueira, uma mulher determinada-sonhadora que desde criança foi impedida de aprender a ler e escrever; mas sua vontade era tão grande que soube  esperar o momento certo para realizar o seu sonho-objetivo; casou-se, ficou viúva e, herdando a fortuna de seu marido, conseguiu realizar seu maior sonho: aprender a ler e escrever. Não satisfeita, resolveu passar isso adiante, ensinando e dando condições para quem quer que seja e queira aprender – criou uma universidade.

Assim são os nossos sertões, acreditando, criando, recriando e realizando sempre.

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CLARA RONCATI

Chegada à casa da Gabi – Boccaccione – que já consideramos parceiros permanentes. Almoço delicioso feito pelo João, com direito à sobremesa do Gabriel. Portanto, logo de inicio, já foi uma acolhida linda, os dois grupos reunidos, os mesmos ‘quereres e estares sempre assim, tão desiguais’. Fomos então conhecer o espaço deles. Luta, feito a gente, para pagar as contas, administrar o espaço, dividir com grupos, editais, patrocínios, enfim, encontro de artes, de fazedores dela. A troca das histórias de construção do grupo deles, com o mesmo tempo de formação que o nosso, corroborara com a certeza de estarmos caminhando e deste ser o caminho. Não dá pra fazer arte e viver dela desconectados da luta política pela sobrevivência e trans-forma-ação social.

À tardezinha, num lindo entardecer de outono, com brisa suave e folhas pelo chão, fomos para o Parque Maurílio Biaggio. Deu-se a magia do palco, da cena, do público; por e para este. A roda foi aumentando, as pessoas foram ficando. Fez-se o riso, o pranto e o silêncio. Magia de nosso espetáculo quando está na rua, de repente, num parque cheio de famílias festando, crianças de skate e bicicletas para lá e para cá, lanchonete ao fundo, mães passeando com bebês, pessoas caminhando e correndo, o silêncio; nada disso impediu que a noite chegasse, a lua no céu cantasse bem sobre nós, feito um louvor e o povo passando, lá permanecesse. Mágico. Pleno. Tal qual o debate, sob as árvores do parque e céu estrelado, a grande roda, as perguntas fluindo, a troca se dando. Balaio de prosa. Proseado, proseando. Lindo de viver. Pra mim, catártico. Houvera estado em ‘crise’ de personagem minutos antes, mas fora arrebatada pela observação docemente sutil de um espectador: “Como você faz pra trazer tanto a emoção para o seu personagem? Em vários momentos a cena estava rolando, mas eu não conseguia desgrudar os olhos das ações de seu silêncio”. Obrigada pela pergunta, afirmação de que está dando certo, agradecimentos a Fagner Rodrigues e Mestre Laranjeiras por me tirarem do chão, da zona de conforto, do ‘não fazer mais do mesmo’. Obrigada ao rapaz, cujo nome não sei, mas que me trouxera de volta a vontade de me entregar a esta personagem, tão senhora do tempo e do silêncio, com a força da história dentro de si.

Finalizamos a noite com rodada de pizza e direito a muita cantoria, novamente na casa da Gabi, de lindo olhos verdes e oblíquos. Obrigada aos grupos ‘sendo tão’ para que tudo desse certo. E deu.

Amanhecemos na Casa das Artes do grupo A DitaCuja e seus parceiros. Também na luta pela sobrevivência no espaço novo. Apaixonei-me pela organização, limpeza e bom gosto do espaço. Depois pela entrega dos atores, que dão aulas de graça pela manutenção do espaço. Faz-se arte neste país, vive-se de arte. Sem verbas a serem desviadas.

Na oficina, o grupo, embora pequeno, ocupou nosso trabalho, espaço e coração, pela participação ativa, pela entrega e partilhas inesquecíveis.

Como de praxe, fui às lágrimas no belo causo de criação da USP pela Sinhá Junqueira, trazida por Naná. Tem coisa mais bela e, controversamente triste do que o desejo impedido de aprender a ler e escrever, do que buscar o saber no lugar do tanque, da linha e da agulha? Não tem. Imaginei minha mãe e tantas e tantas meninas que, há tão pouco tempo – historicamente falando – não podiam aprender porque ‘isto não é coisa de mulher’! Agradeci por ter nascido neste século. Agradeço à Naná, à Ivete, chegando ao teatro e cuja doçura embebedou-nos, ao demais que participaram e totalmente nos encantaram.

Finalizo com um trecho de Gilberto Gil que considerei propício: “Vou fazer a louvação do que deve ser louvado. Meu povo, preste atenção e me escute com cuidado, e louvo pra começar da vida o que é bem maior, louvo a esperança da gente na vida pra ser melhor”. Obrigada parceiros da Cênica, Boccaccione, Dita Cuja, Ribeirão Preto.

Gostaria de ressaltar aqui que desta vez escrevi um pouco mais, por nenhum outro motivo a não ser ter escrito na seqüência, fica a certeza de como escrever sobre nossas ações contribuí para a construção madura do ser artista, do ser-tão.

José Maria pede para dizer que concorda com tudo, foi lindo e ’ah, para!’ Rs.

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FAGNER RODRIGUES

Paixão antiga!

Não é segredo para ninguém o amor e o carinho que sinto pela Cia Boccaccione. É um caso antigo, foi paixão à primeira vista. O primeiro encontro foi com diretor João Paulo Honorato, no Festival de Catanduva/SP em 2007, e de lá pra cá não perdemos contato, fui conhecendo aos poucos os integrantes e o sentimento foi o mesmo, irmandade. Foram diversos os festivais que falaram sobre isso, uma proximidade de energia e linguagem entre as duas cias.. Já tínhamos recebido o “Bocca” diversas vezes aqui em Rio Preto, faltava o nosso encontro na terra deles Ribeirão Preto. Eis que chega o dia. Chegamos e fomos acolhidos com uma avalanche de carinho. No quintal, sentados entre cachorros, prosa e cantorias se deu o encontro, um momento de comunhão. Nos sentimos em casa, era uma extensão do nosso quintal. Agora as duas cias. têm a mesma preparadora vocal, Elaine Matsumori, e cantamos em uma só voz. A arte do encontro, da troca de saberes, tudo foi perfeito… a apresentação do espetáculo, que o grupo sabiamente mudou de local e foram certeiros. Na oficina pudemos conhecer outros coletivos da cidade e ver como eles conseguem dialogar sem disputar. Coisa linda de se ver. Senti um “é tudo nosso, nada é meu” e só posso agradecer e dizer até breve! Esperamos vocês de braços abertos, e ainda enamorados pela arte que nos une.

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ÍCARO NEGRONI

Foi maravilhoso presenciar grupos de teatro interagindo e trabalhando em conjunto para o crescimento artístico de modo geral. Fomos maravilhosamente recepcionados pela Bocaccione, uma companhia assim como a nossa, com suas lutas, dificuldades, superações e que também’ não deixam a peteca cair’ frente às diversidades da nossa arte. Obrigado, e espero que nos encontremos outras e outras vezes por essa nossa vida artista. Evoé.

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LAISA ANSELMI

Uma das coisas mais belas que podemos cultivar durante este nosso tempo ao qual chamamos de vida pode-se chamar de amizade, de encontros, de risos, de arte. Os dias com a Cia. Bocccione foram assim, repletos de coisas belas, de coisas em comum, num almoço que mais parecia de família, pude ver um contraste entre duas companhias que, com o mesmo tempo de formação, enfrentam a luta diária para se fazer arte, pela sobrevivência, para o existir.

A tarde chega num frescor de um parque aberto, com folhas dançando na brisa, crianças com olhares curiosos, tudo parecia em ”perfeita ordem”. Ali fez-se um ”amuntuado” de gente, surgiram risos, prantos, vozes, batidas, danças, silêncio, e nossa história foi contada. Mas no fim tudo termina em pizza (risos); em pizza, em canto, em roda, vi artistas fazendo arte na alegria de estarmos juntos.

Na manhã seguinte, o caminho era para A Casa das Artes, mantida pela Cia. A DitaCuja e parceiros. Ali me identifiquei com a rotina na minha cidade, conheci gente que, assim como os artistas ibiraenses, não medem esforços, sacrifícios, tempo e luta para se manterem e anseiam o dia em que o artista poderá viver unicamente da sua arte, da sua verba, do seu valor. Durante o nosso tempo de oficina aprendi mais do que havia levado, e saí de Ribeirão conhecendo a graça, a força, a história de vida de Sinhá Junqueira, fundadora da USP, uma mulher que assim como tantas foi privada do saber de ler e escrever, afinal ”mulher não era feita pra isso’. Confesso que saí de lá dando mais valor a educação que me foi dada.

Encerro dizendo que minha passagem por Ribeirão foi feliz, foi valorosa e que cada dia que me é proporcionado este prazer por conta da arte penso mais no quanto me vale a pena lutar para que o nosso ser-tão não morra.

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NETO CHIACCHIO

Assim, no destino traçado, foi de grandes encontros que Sabiás conheceu os mais diversos públicos, amantes da arte, companhias bem próximas à nossa realidade, pessoas das mais diversas, incrivelmente sempre bondosas, acalentadoras, onde o acolhimento era de pureza e verdade, onde não havia interesse algum, uma troca em família.

Foi de viver o momento, apreciar o que foi construído, sentir em corpo, alma e “nexo” o que escolhemos fazer, apreciadores da arte fizeram presente. Ribeirão Preto, a “Califórnia brasileira”, permitiu que conduzíssemos o espaço de cultura popular, de sertão interiorano.

Se existe algo em que ando levando de volta à minha terra é a simples palavra “troca”, já hoje entendida e compreendida da essência ao real sentido na amplitude da pequena palavra, um amor em cada lugar.

A matéria prima toma novas formas, o bruto se conjuga em cada etapa de evolução com ferramentas antes desconhecidas, de sólido a líquido de forma antiga e assim de líquido a uma nova solidificação como acabamento fino de ferramentas específicas de molde renovado e sinuoso, fez-se assim, uma peça rica pela troca.

Falei e serei redundante, obrigado por mais um primeiro encontro, com pessoas tão especiais que “reencontramos” sem ter a consciência de lembrá-las que já foram encontradas um dia.

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SIMONE MOERDAUI

Mundão de gente, ribeirões.

Parecenças, várias.

Casa das Artes, A DitaCuja, Boccaccione, Cênica.

Comer, beber, dançar, cantar, subir e baixar a lona, preparar o corpo, desenhar o gesto, aquecer a voz e o coração, jogar, percorrer novos espaços, desvelá-los, como é que vocês fazem?, saber de tudo mais um pouco, servir, dar-se deliciosamente a público, compartilhar. Motivo de festa-celebração é o que não faltou nesse encontro.

A força dos coletivos em pleno vapor, por todos os cantos de cada um dos dias.

Anda, sabiá, que o céu por aqui é terra… Do circo do avesso, sim, mas também do circo-em-flor.

Obrigada, companheiros!

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VANESSA PALMIERI

Já dizia Manoel de Barros “Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.

Ribeirão Preto foi assim, puro encantamento. A Cia Boccaccione produziu em mim um sentimento de irmandade. Foi como me ver pelo lado de fora. Nas atitudes, nos sorrisos, nas danças, nas diferenças, nos olhos, no parque, na mesa, no palco e na vida. Reflexo. Reflexão. Estava na deles, mais do que em mim.  Penso eu, ser destas coisas de energia, que a gente não explica, e que nem precisaria, pois o bom mesmo é se servir e se fartar dela, porque senão se esvai, se perde…

Se perde como detalhes de lua sobre a nossa cabeça, bolo de cenoura da Elaine, torta de Naná, achar pérolas para Clarinha, varrer chão com as mãos, olhos calmos e prestativos de Rodrigo, tia na plateia, rodadas de pizza, strogonoff, brigadeiro, roda de samba, teatro, histórias locais de sinhá Junqueira, música linda da atração, Mara nos bastidores, olhos de Gabriela, lambidas de Zeca e Lola, bola no telhado, boca tímida e coração cheio de Ivete, expressões de Tais, olhos de menino querendo brilhar na Broadway, pessoas aproveitando o tempo pra se abraçarem. Sem tempo. Hora de despedida.

Passou tão rápida aquela sexta-feira e aquela manhã de sábado! Queria eu mais do sertão de Ribeirão. Queria ouvir mais, conhecer mais e ficar mais. Queria o tempo amarrado no poste, pra saborear mais do sertão dos boccacciones e dos ditocujos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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