O projeto do Galpão Arthur Netto de Cultura e Cidadania nasce primeiro da indignação de artistas e produtores, que se uniram em torno do assassinato do jovem Arthur José Netto, ator profissional e um dos fundadores da Cia. do Escândalo e idealizadores de um projeto de cultura de cidadania e paz através do acesso irrestrito e público à arte, ocorrida em agosto de 2006. O crime chocou a sociedade e provocou grande mobilização social. Neste sentido, o projeto visa manter aceso o debate sobre cidadania e temas correlatos, como violência, preconceito, intolerância, exclusão social, aceitação da diversidade, gentileza e humanização das relações. Suas ações centram-se na criação de um espaço livre para a pesquisa, criação, fruição e crítica de atividades das mais variadas linguagens artístico-culturais, tendo em vista o papel fundamental da arte em relação à formação do ser como parte integrante de um meio coletivo, da sociedade em que vive, e dos valores e das regras que nela existem.

Leia abaixo os depoimentos dos artistas da Cia. Cênica sobre este encontro.

Depoimentos

 

DEPOIMENTOS DA EQUIPE INTEGRANTE DO PROJETO

Sabiás do Sertão: de Ponto a Ponto

 Ponto de Cultura Galpão Arthur Netto de Cultura e Cidadania

 25 e 26/abril/2015

ANTONIO BUCCA

“Se foi a favor da massa, por que então preto não pode ter nome de praça?”

São tantas coisas e imagens que grudam dentro da gente feito peste, assim como a terra vermelha na botina, e essa frase acima, foi algo da nossa oficina em Mogi das Cruzes que grudou em mim e da minha mente não quer sair.

E se o artista, assim como o negro em questão, é ou não a favor da massa, foi ou não um louco idealista, se nada contra a corrente, se anda na contramão de uma via, se envia o que o povo quer ou mostra o que é pra ser escondido, assim quero ainda mais ser artista e nem preciso virar nome de praça, de rua, pois pouca importância tem.

Com o negro Sebastião foi assim, pouco importou pra gente sua ágora, mas sim a sua história, seu exemplo, sua cruz se fez eternizada junto de tantas outras cruzes deixadas pelos caminhos de Mogi.

E é de artista, de gente, de batalhadores por uma ideologia, por um espaço, por uma cultura, por uma formação de público que vi, que vivi, que levo comigo e de quem aqui falo. Falo de uma gente que mesmo calada fala, que mesmo surdo ouve, que vive a arte tão intensamente.

Volto querendo abraçar! Quero abraçar uma causa, uma ideologia, uma árvore, um alguém, até mesmo quem sabe o “Secretário de Cultura”, pois talvez esteja aí a forma de atuar perante a rejeição da nossa arte em um secretariado onde o teatro é…. é o quê mesmo?

Viva o Galpão Arthur Netto e seu exemplo!

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CÁSSIA HELENO

Em Mogi a troca aconteceu desde a nossa chegada. Saímos da rua (por causa da chuva) para o espaço interno, acolhedor, cheio de  novidades; pois cada espaço, local que apresentamos tem o seu jeito ser tão de ser .

Os olhares, o encantamento sempre presente, me faz crescer e querer sempre mais estar no ser tão de cada um que ali esteve. Na oficina com  a troca de conhecimentos, de saber o que cada cidade tem pra contar me fez refletir… e por alguns instantes voltei para minha cidade querendo saber mais do que já sei sobre ela.

Ouço tanto o ser tão dos outros que me peguei pensando no meu ser tão, na minha raiz , na minha vida e na minha história: Que ser tão sou eu?!?

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CLARA RONCATI

Galpão Artur Netto – e três guerreiros – Manuel, Danilo e Pedro. O velho chavão ‘ gente que faz’ não poderia ser mais propício. Desde a refeição até as discussões políticas, lá estavam eles. Lindos de se ver, de viver. Intensos fazedores de arte.

A oficina nos surpreendeu, pela entrega dos participantes, pelo belo causo do escravo Sebastião, pela certeza de que o encontro valeu a pena.

Como terminamos normalmente a oficina, termino este “… Quando a gente não espera o sertão vem. O senhor querendo procurar, nunca não encontra”. Encontramos lindamente um sertão, tão ser, escondido naqueles quereres de receber a gente, assim somente.

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FAGNER RODRIGUES

Da primeira vez que vi a cruz!

Engraçado esse é a terceira vez que estive em Mogi das Cruzes e pela primeira vez eu vi a cidade, eu senti a cidade, devia ser o concreto que chegou forte pela primeira vez em nossa circulação? Não, foi o contato direto com que luta diariamente por simplesmente resistir: nosso parceiro na cidade foi o “Galpão Arthur Netto” Ponto de Cultura sem receber nada do governo, assim como todos os outro dessa circulação. O que essa turma faz é de saltar os olhos, que orgulho e que inveja boa… o local é lindo, bem cuidado e charmoso. Me senti em casa, que intensidade. Estávamos na rua, tudo pronto cenário, som, luz, mas o galpão nos chamava, ele chamava sem parar, queria a gente lá dentro quentinho, abraçado e do nada veio a garoa e o galpão sorriu, como quem diz: eu avisei… e dessa vez escutamos, adentramos e juntos comungamos, a arte de resistir. Olhei para o Manoel, que era meu contato no galpão, e vi que o espaço não era só dele, e ele me olhou e viu que a cênica não é minha, nos misturamos, esparramamos. Ai pela manhã dia de workshop, um frio danado, onde o cobertor teimava em não deixar ninguém acordar… acordemos para o fazer! Em um exercício de troca, os artistas da cidade fizeram a Cia. Cênica ir às lágrimas com a história do negro Sebastião, você conhece? Não… que pena, pois ela é tão atual, está ai na juventude negra assassinada, nos professores massacrados, no povo trabalhador…. e no Arthur Netto, que permanece vivo no galpão!

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GLAUCO GARCIA

Em uma rua de pedra fizemos nosso ninho, mas a natureza tinha planos diferentes para os Sabiás e a abençoada chuva caiu mansa e delicada, foi insuficiente para matar a sede da terra, mas o bastante para espantar os Sabiás…

Erguemos a lona do nosso ninho e dessa vez o fizemos em lugar seguro… dentro do galpão Arthur Netto.

A apresentação foi emocionante para mim. Trouxe-me uma ebulição de sensações daquelas que devemos agradecer aos céus por nos mostrar que ainda somos capazes de nos emocionar e que com o passar do tempo, apesar do nosso couro endurecer, nosso coração amolece… graças a Deus! Senti saudades de coisas que ainda não vivi.

Obrigado aos companheiros de cena! E ao pessoal do ponto de cultura Galpão.

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LAISA ANSELMI

Tinha que ser rápido, precisávamos chegar a tempo de tudo. Destino: Mogi das Cruzes. E assim foi. Ao chegarmos, a mudança de temperatura já nos recebeu, estava muito frio pra quem se acostumou a viver no interior de São Paulo. Porém, o frio não preocupava, não tanto quanto o céu com nuvens aparentemente carregadas; como disse, o tempo era curto então tramamos logo de fechar a rua, de subir novamente nossas luzes, de nos aprontar. Quando a notícia de chuva chegou, até parecia tarde, nossos instrumentos já estavam molhados, a madeira também, foi quando a correria pra mudar tudo de lugar começou. Em minutos tudo estava pronto de novo, feito a muitas mãos. Voltamos, agora já parcialmente molhados, últimos detalhes prontos, público chegava, a cantoria iria começar. E assim foi, num espaço agora menor com o público a menos de 2 metros, sentíamos aquele calor, aquela acolhida, o frio sumiu e a chuva se tornou detalhe, naquele galpão tudo aconteceu.

Não posso negar que, na manhã seguinte, o cansaço persistia, porém ainda havia mais uma oficina. Mesmo que com menos pessoas, não deixou de ser especial. O frio continuava lá fora, mais ali dentro, a cada batida de pandeiro ou pisada no chão, ninguém mais ligou ou sentiu frio. Os sabiás já estavam prontos pra voar de volta. Foi um fim de semana intenso com duas cidades, com muitas coisas pra se contar, se lembrar.

Voltamos conhecendo um pouco  dos diferentes chãos, das outras terras, de fato, das novas histórias.

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NETO CHIACCHIO

Mais uma vez sinto a necessidade de passar a diante o pouco que aprendi em Mogi das Cruzes, a cidade do caqui. Mas antes, em poucas palavras, a correria que foi, o que era pra ser rua já não dava mais, o tempo fechava e a garoa tomava conta do cenário montado. A solução mais sensata em ver nossa história se molhando foi no interno, tira tudo, desliga, desmonta, rápido, liga, coloca, monta, ops! já é hora do show. Nada se perdeu, pelo contrário, irradiou o que lá fora se fechou, aconteceu e encantou o que era imprevisível. Agora já se podia sentir e ver o deslumbramento nos olhos do público.

Passa o dia, amanhece e o imprevisível torna acontecer, mas agora quem mais nos surpreende são as pessoas que buscavam saber o que a troca possibilitaria na oficina “O sertão é o mundo”. E no sertão de Mogi, o mundo foi conhecer uma história local, encenada em mais um breve exercício. Eu mal sabia o tanto que me surpreenderia, além da belíssima lenda cantada-narrada, foi ver que eles estavam munidos e cheio de vigor para o singelo exercício. Ao chegar em casa, ainda impactado, pesquisei a história: “O Escravo Sebastião, um agricultor de São José do Paraitinga (depois, Salesópolis), feriu seu patrão em legítima defesa, foi processado e julgado. Outros informam que o preto avocara a si um assassinato, por mandado de seu senhor, o qual lhe garantira a absolvição e, como prêmio, a alforria. Entretanto, seja qual for a versão certa, o fato é que o preto Sebastião foi julgado e condenado à morte. E em cumprimento da sentença, foi enforcado em espetáculo público a que compareceu muita gente…

O enforcamento do escravo Sebastião não foi o único na Mogi das Cruzes de antigamente. Nenhum outro, entretanto, teve a repercussão que o dele alcançou, chegando aos nossos dias. Conta a lenda que no dia aprazado grande número de pessoas rodeava a forca, levantada no local onde hoje se encontra a Rua Dr. Cândido Vieira. Afinal chega o condenado, o carrasco passa-lhe a corda no pescoço e dá o puxão de estilo. Mas a corda se rompe!

Repete-se a cena. E a corda parte-se outra vez!

Ainda uma terceira vez, diante dos assistentes incrédulos, corta-se novamente a corda!

Quando os presentes exigiam que se suspendesse a execução, aos gritos de “ É inocente!…”, passa pelo local um tropeiro, que oferece ao carrasco um laço trançado com tiras de couro, com o qual, finalmente, o escravo é enforcado diante da assistência já assombrada.Conta ainda a lenda que o tropeiro deixou o local e não andou muito, pois logo a seguir foi acometido de loucura e despenhou-se com o seu cavalo num precipício, tendo morte horrível….

A lenda do escravo Sebastião atravessou os anos até que em 1902 inaugurou-se, no próprio local da forca, a capelinha de São Sebastião, em memória do triste episódio.

Até hoje, os devotos do patrono do enforcado dali vão solicitar suas graças acendendo inúmeras velas, numa cena que se repete há dezenas de anos e que revive, em cada chama, o drama que assombrou os nossos avós e que chegou até hoje, envolto na mesma aura de mistério e de piedade…”

Obrigado por dividir e passar adiante suas histórias.

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SIMONE MOERDAUI

Em Mogi, no Galpão Arthur Netto, há três mosqueteiros que, entre comes e prosas, nos receberam com o maior carinho: Manoel, Danilo e Pedro. Eles se desdobram na gestão, manutenção e nos corres pra manter seu espaço em pé e muito, muito vivo. Pura artesania. Bonito de ver mais uma história pulsante de luta.

Faríamos o espetáculo na rua, em frente ao Galpão. Tudo pronto. Mas Santa Clara deve ter se distraído num dedim de prosa animado com outro santo gente boa e São Pedro não perdoou, sabe lá o por que… Faltando pouco para o início do espetáculo, garoa. Correria da Cia. e da plateia, numa espécie de aquecimento coletivo, pra levar cenários, figurinos, equipamentos e instrumentos para dentro.  E lá aconteceu. Uma energia gostosa, própria do espaço e de todos que ali estavam, soprou pro alto o Sabiás. Há dia em que a troca com o público é tão intensa, a comunicação tão direta, o jogo tão fluido que nos tornamos puro entusiasmo (etimologicamente falando mesmo, cheios de deus, divinamente inspirados). Após a apresentação, meu corpo ainda vibrava… e mais ainda com o depoimento-presença de Milton-poeta, que partilhou a força da lembrança de seu pai cantando todo o repertório de Cascatinha & Inhana à sua mãe. Não me lembro de alguém ter me olhado nos olhos com tanta profundidade. Depois, um balaio de prosa construtivo, rico de reflexões sobre o fazer teatral estético e político.

Manhã seguinte, como se não bastasse, cinco artistas nos falaram, na mais rica linguagem poético-musical, plena de reinvenções, sobre o negro Sebastião – escravo guerreiro que, no intuito de ser bem enterrado pela história mogiense, foi disfarçado em São Sebastião. Mas se foi a favor da massa, por que preto não pode ter nome de praça?, clamavam os artistas-cidadãos, não nos deixando esquecer que desigualdades e preconceitos são construções sociais e que ainda não foram suficientemente transformados.

Não estamos sozinhos. Essa ciranda é mesmo de todos nós.

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VANESSA PALMIERI

Mais uma vez isso torna a acontecer. Faltando 15 minutos pra o espetáculo começar, a chuva começa a cair. Foi um corre-corre geral. Montamos então dentro do Galpão Arthur Netto, e não podia ter sido melhor. A plateia pertinho, cantando a história junto conosco.

A troca na oficina me marcou, na entrega, no interesse e na história, linda e emocionante de um escravo Sebastião. Confesso que fiquei alguns dias com a música ecoando na minha cabeça. Me digam, por que é que preto não pode ter nome de praça, hein?!

Mogi foi literalmente uma delícia. Da plateia aos ponteiros e das comidas às conversas. Deixaram-nos com um gostinho de quero mais.

Ah, e antes que eu me esqueça, um abraço ao secretário de Cultura!

Evoé!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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