O Ponto de Cultura Garapa é fruto de longo amadurecimento e consolidação do trabalho de mais 27 anos de atividades do Grupo de Teatro Andaime, da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. Constitui-se um centro de criação e irradiação cultural em Piracicaba e região por meio de seus projetos e como uma alternativa de espaço para todas as manifestações culturais da cidade, no sentido de possibilitar aos grupos artísticos interessados se desenvolverem e mostrarem seu trabalho. O Ponto de Cultura Garapa também tem em sua programação artistas de outras cidades que necessitam de um espaço mais intimista para apresentar ao público seu trabalho.

Leia abaixo os depoimentos dos artistas da Cia. Cênica sobre este encontro.

Depoimentos

 

DEPOIMENTOS DA EQUIPE INTEGRANTE DO PROJETO

Sabiás do Sertão: de Ponto a Ponto

 Ponto de Cultura Garapa

 24 e 25/abril/2015

ANTONIO BUCCA

“…Chegou a hora da andança, a hora da nossa mudança…”

Mudamos, voltamos! Voltamos a pisar na terra, no chão. Não na linguagem metafórica. Literalmente pisamos no solo, na grama.

E se é da terra que as raízes se alimentam, e se é da água que a própria raiz leva seiva ao caule pra florescer uma planta, digo que tivemos terra, e que tivemos água em abundância, pois fez nascer em mim, num belo galho, uma flor chamada saudade.

E nesse galho pousaram dois Sabiás Sertanejos que ainda ouço cantar. Ainda sinto o cheiro daquela praça, daquele chão, ainda sinto o cheiro do café, ainda reverbera em mim a energia daquela noite.

Ao fechar os olhos, posso de longe ouvir o lamento das águas, o pranto da noiva, o grito da índia, que ecoava à meia noite por entre as pedras na cidade onde até o rio é música.

Mas nem só de poesia vive o artista, nem só de fabulas ou lendas se alimentou a nossa alma, mas principalmente da troca de energia, conhecimento e experiências que certamente serão as imagens que buscarei na memória quando mencionar a minha passagem com o espetáculo “Sabiás do Sertão” por Piracicaba.

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CÁSSIA HELENO

“O rio de Piracicaba vai jorrar água para fora…..”

Como diz a lenda-história: à meia noite, na lua cheia, o rio de Piracicaba PÁRA!!!!, e quem passa por lá ouve o lamento da moça que com ele quis ficar, fizeram ficar e ali está!

Ficamos , fazemos e estamos onde queremos e desejamos; foi assim que aprendi na oficina , essa troca mútua de ser estar ser tão só e junto; aprender e doar se.

Apresentar em piracicaba foi um momento mágico, lindo e pela primeira vez apresentamos no verde , entre árvores e gramas… foi como se as nossas raízes , o nosso ser tão , se fincassem no chão brotando uma energia mágica , uma troca de sensações que paira no ar por alguns instantes… como fez ou faz o Rio Piracicaba.

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CLARA RONCATI

As águas do rio se encontraram com as águas calmas do Chapéu. Seu paradoxo entre a força e doçura me encantaram. História de garra, de luta pela arte, pela vida, pelo ponto, pela cultura popular.

Não banhamos no rio, porque banhamos em você, Chapéu. Luiz Carlos Laranjeiras estava bem certo em seu bem querer, que também ficou sendo nosso. Obrigada por tantas histórias e tanta luz em tão pouco tempo. Quis lá ficar.

A oficina foi uma aula de boas histórias, de participação, de contar causos que ficarão na nossa memória. Em certo momento, um grupo – Carlos, Willian e Gabriel – recontou a história do nosso espetáculo, entre os participantes, um que não assistira, e foi acertando tudo, rimos muito, bom demais. Depois choramos na história de índia do véu da noiva, enfim, uma aula de história, ao vivo e em cores. E assim saímos, vivos e com cores! Da moda do mestre Guimarães, o amor foi chegando e pegando a gente assim, desprevinido.

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FAGNER RODRIGUES

O lugar onde o peixe para, para ouvir o rio cantar!

Nossa passagem por Piracicaba foi de puro canto, tudo tinha som, chegamos e fomos apreciar o rio em cima da ponte “Tião Carreiro”, e das beiradas águas olhávamos a cidade. Nosso parceiro foi o Ponto de cultura Garapa,  que literalmente do bagaço produz mel, capitaneados pelo abelhudo do Antônio Chapéu,  “gaiato” diria Luiz Carlos Laranjeiras,  nosso mestre e que já tinha trabalhado com o “Andaime” grupo que fundou o ponto de cultura, uma misturança só. Foi assistindo o Andaime que me encantei pelo trabalho do mestre “Laranjeiras”, então era o momento de agradecer, e agradecer é tudo que podemos fazer diante de tanta beleza nessa troca de saberes escondidos na aba do chapéu, que nos revela que depois de 30 anos de trabalho as dificuldades são próximas de um grupo como nosso que só tem 8. Apresentamos numa praça linda, que reunia de tudo, cachorro, idosos, crianças e artistas, jogando cantoria rio afora. No outro dia, pela manhã, durante o workshop, me senti velho, enferrujado,  diante de tanta juventude sedenta por aprender. Voltei determinado a cuidar do corpo, e a pensar essa relação corpo-artista,  e eu que nada sei, só sei que sigo acreditando que se cantarmos essa luta da sobrevivência cultural juntos, seremos sempre fortes.

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GLAUCO GARCIA

Pousamos nas margens do rio de Piracicaba e já fui surpreendido por um lugar onde a história permanece viva em suas águas e construções (pois é, olha a água aí outra vez), é lá que o peixe pára e nós também paramos para conhecer a rua do porto, o mirante, o museu da água, a ponte pênsil, o véu da noiva, enfim tudo o que tem direito um Sabiazinho cansado da viagem.

Mas o que mais surpreendeu foram as pessoas daquele lugar.

Com um sotaque incomparável e inconfundível fomos seduzidos por essa cidade pela qual tanto tenho apreço.

A apresentação aconteceu em uma praça e pela primeira vez o Sabiás do Sertão cantou e encantou com pé na terra… foi lindo!

O encontro de duas faces da mesma moeda… o encontro de dois sertões… de dois sertanejos… do peixe parado e do sabiá encantado, que com brilho nos olhos leva essa cidade no coração… O sabiá continua sua viagem por outros sertões e leva um pouco de Piracicaba e suas histórias…

Muito obrigado ao público que abrilhantou nossa apresentação em especial ao meu camarada Marcelo Bezerra e sua companheira Rê… aos participante da oficina que mais nos ensinaram do que aprenderam com a gente e aos companheiros de luta do ponto de cultura Guarapa.

Seguimos voando e cantando a saudade do Riiiiiiiiiiiooooooo de Piracicaaaaaaaba…..

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LAISA ANSELMI

Foi na famosa Piracicaba que os nossos Sábias pousaram desta vez.  A cidade do rio, com tantas histórias, lendas, olhos, águas. Conhecemos pessoas inspiradoras, de um amor pela arte gritante. Passamos  por cenários naturais que enchiam os olhos, um lugar lindo de se ver, e viver. Apesar de tanta água, foi na terra, na grama rala, no verde que nosso circo se armou. Ali subimos nossas luzes, armamos nossa lona numa noite fresca. Mais uma vez todas as idades, todos os olhares se reuniram para cantar o amor sertanejo, foi lindo! Trocamos nomes, gestos, risos. No fim tudo terminou em roda, em canto, numa forte ciranda que contou histórias. Saí de lá podendo dizer que conheço não só as águas que correm, mas também que conheci um pouco da sua gente, das suas lendas, dos seus encantos, da sua história.

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NETO CHIACCHIO

Difícil começar escrevendo algo quando passamos por certos momentos, muitas das vezes captamos as essências, mas esquecemos de visualizar mais a fundo. Sempre me pergunto se o que temos mais distante é mais importante que as próprias essências, essências nas quais se resumem sentimentos, e é disso mesmo que sempre gostei, o sentir, dar-se abertura, entender pelo coração do próximo o que sai de seus olhos, e foi em Piracicaba, de meu jeito, que pude sentir a pureza dos mais diversos olhares. Hoje, por sua vez, me esqueço por alguns instantes de relatar meu sertão e tentar descrever meus sentimentos em palavras sobre o Sertão Piracicabano.

Em meio a risos e gargalhadas, eis que surge uma ponte, um rio , os pássaros, Piracicaba. E o próximo ser vivo com que me deparei foi nada mais e nada menos que José Antonio Chapéu. Primeiras impressões que já cativava, sem menos ter conhecido já sentia a importância de quem faz grandiosidades com tão pouco, nos mostrou de onde, pra que e por que Piracicaba é invejável e, como disse Simone, moraria ali sem esforços. Cada lugar que temos o prazer de conhecer queremos ficar, ficar e ficar. Foi bonito conhecer Chapéu e poder trocar para além de editais, como ele mesmo disse. Contou-nos histórias de bonecos e índios da cidade onde o peixe para, por sinal o melhor peixe que já comi na beira do rio.

A pesca se faz presente junto ao museu da água que por sua vez se deslumbra bem pertinho do salto do rio. A pacata cidade se mostra soberana em verdes detalhes onde verdes tornam-se azuis e nos azuis arrebóis uma mistura de cores que marcou e riscou os mínimos que eram máximos.

A maior troca de saberes foi receber em encenação a nossa história por aqueles que são de chão piracicabano e ver e sentir dos mesmos lendas e histórias locais, como “O véu da noiva“ e “Os índios“, dado o título de outra lenda local por eles de mesma terra. Foi deslumbrante, emocionante, gratificante e revolucionário quando se pensa em sentimentos e ações.

Obrigado a todos. Boas lembranças de Piracicaba.

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SIMONE MOERDAUI

Em lugar onde peixe para, sabiá para também, num ajuntamento que celebra a beleza, a arte, a cultura popular e que revela buscas comuns, cotidianas, incansáveis.  Assim se deu entre o povo da Cênica e do Garapa / Andaime. Em comum, o teatro, a música, o encontro com o mestre Laranjeiras , a militância político-cultural, o amor por toda gente.  A coisa se faz na raça. O Ponto resiste pelas reinvenções dos que o animam. Foi uma convivência curta, mas muito intensa, de muito aprendizado.

“Sabiás do Sertão” canta a terra. Em Pira, pela primeira vez e literalmente, enraizou-se em uma praça onde o cinza quase não há. O bucólico das canções caipiras ali tomou corpo e espaço. E tempo, com as vozes de Tonin e Quinzin, irmãos de sangue e de um talento musical que deixaram Cascatinha e Inhana acanhados em cantar na seqüência, ainda que diante de uma plateia deliciosa, receptiva, daquela cujos olhos alimentam a gente, nos trazendo a certeza de que o fazer amoroso é o único possível.

Dia seguinte, outro presente: um grupo de jovens artistas bem dispostos e animados para os trabalhos. Além de compartilhar os processos de pesquisa e montagem do espetáculo, o propósito do workshop “O Sertão é o Mundo” é provocar reflexões sobre a importância de dizer e de apostar em si mesmo, em suas raízes, suas funduras, sua gente. Impossível não lembrar da força cênica com que esses jovens nos trouxeram a sua terra, o seu sertão-mundo nos mitos do grande rio Piracicaba, remetendo-me inevitavelmente à canção, pois que “a nascente dos meus olhos já formou água corrente”.

Agradeço a cada um pelas histórias, emoções, pensares e momentos compartilhados, e mais: ao Chapéu, por me lembrar do que já havia esquecido, ao Chico, por toda gentileza de seu sorriso e atitudes e aos meninos, pela entrega.

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VANESSA PALMIERI

Na terra piracicabana, literalmente, armamos nosso circo. Isso por si só já foi um ganho. Na terra da praça, debaixo de um céu aberto, envoltos por árvores, e com resquícios da brisa do rio Piracicaba, fomos passarinhos, somos Sabiás. E os Sabiás voaram, cantaram e por que não dizer, encantaram. Encanto, esse é o Ponto. O Ponto em cena na voz de “Tonin e Quinzin” merece uma ressalva!

Os olhos de Chapéu jogam água, jogam rio, jogam um mar pra fora. Mar de força, de garra, de bagagem e de simpatia, claro. Conhecer sua luta, junto ao Ponto Garapa, fez meu sertão e a minha/nossa realidade se fundir com a deles. Voltei alimentada de energia, de histórias e de fé pra continuar batendo as asas.

À frente porque o Rio pára, mas o show não.

Evoé!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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