O Ponto de Cultura Cultivar a Arte, da Associação Comunidade Yuba, tem como proposta fortalecer seu núcleo através de encontros culturais, com o objetivo de gerar reflexão, fomentar novas criações artísticas e formar as novas gerações através de trocas e vivências em diálogo com a filosofia da comunidade: a arte ligada ao cultivo da terra e à oração. Além disso, busca intensificar e ampliar o raio de suas ações culturais, de forma que as comunidades do entorno possam usufruir da infraestrutura do Yuba, possibilitando que a experiência trazida em meados do século passado possa ser aprendida por outras pessoas.

Leia abaixo os depoimentos dos artistas da Cia. Cênica sobre este encontro.

Depoimentos

 

DEPOIMENTOS DA EQUIPE INTEGRANTE DO PROJETO

Sabiás do Sertão: de Ponto a Ponto

 Ponto de Cultura Cultivar a Arte / Associação Comunidade Yuba

 16 e 17/maio/2015

ANTONIO BUCCA

Por entre arte escrevo esse depoimento, no jardim das esculturas da Comunidade Yuba. Penso que não conseguirei colocar em palavras o que passa em minha cabeça agora, depois se uma experiência única.

É tempo de reflexão. Parece que aqui o pensar é algo que nos invade, é precioso, pois há quanto tempo, por essas andanças pelo Brasil, não paro pra pensar no papel que represento na comunidade onde vivo, para as pessoas que vivo, pra mim que por mim vivo.

Acredito que este contato com a natureza, esta comunidade japonesa, este sol da manhã que aquece agora minhas palavras, é algo que me fez pensar no equilíbrio, no ser e estar no mundo, nos planos, projetos, objetivos, no pra onde quero ir, porque quero ir e por quem quero ir.

Aqui parece que a mente se vai sem destino, sem limites e eu me pego pensando novamente nas verdades escondidas dentro de mim em que, muitas das vezes, só eu mesmo acredito e isso já é tudo.

Ao som do chacoalhar das árvores e sinfonias de pássaros, me pego olhando neste instante para a escultura chamada “Encontro” e assim volto a refletir no poder dessa obra que nada mais é do que duas pedras pontiagudas se encontrando,  parece que conversam, que se olham, se reconhecem; às vezes posso ouvir sua conversa, sua troca sem palavras, seu contato, seu encontro.

“Yuba” foi então o encontro, o conhecer o novo, o trabalho em grupo, o amor à terra e ao que da terra brota, a cultura japonesa viva, vívida, pulsante, a comida orgânica, a troca sem palavras, o abraço tímido mais sincero e caloroso, a recepção mais quente e efervescente dessas andanças junto com meus “Sábias Sertanejos”.

E se é de encontros que se vive a vida, se os encontros nos fazem crescer, mudar, transformar, evoluir, a comunidade Yuba hoje é parte desse grande encontro entre o que sou e penso, entre o que sonho e busco, entre o que quero e faço, mas principalmente pude me encontrar dentro de um ser esquecido em mim.

_______________________________________________________

CÁSSIA HELENO

あなたが取得する必要がありさ

“ANATA GA SHUTOKU SURU HITSUYÕ GA ARI-SA”

(“O que tem que ficar, fica”)

E fica mesmo!!!

Assim é que me sinto, contagiada –renovada com a nossa participação pelo ProAC em Mirandópolis na Comunidade Yuba. Foram dois dias que pareciam uma semana; tudo muito intenso, o Ser tão deles é muito diferente do nosso Ser tão, parecia que eu estava no Japão, em outra atmosfera; ao mesmo tempo em que era tudo novo-estranho, isso me trouxe uma paz muito grande, o encontro comigo mesma.

Foi mais aprendizado do que troca, eles são simples e fazem o simples, ricos em Cultura-Sabedoria. Sinto-me em êxtase.

Como as diferenças me fizeram pensar… Escrever nossa história é fácil, difícil são as interferências com que nos deparamos.

Do simples ao mais sofisticado, o que fica é o caminho percorrido!

_______________________________________________________

CLARA RONCATI

Expectativas, medo ou ansiedade, não sei bem. Fagner falando pra respeitar o espaço deles e coisas e tal. Tive medo. Fiquei lembrando-me de minha mãe, sempre quando me mandava fazer alguma coisa certa e eu a fazia errado. Cheguei, chegamos, pisando em ovos, ainda mais por estarmos levemente atrasados e eles serem rigorosos, assim achávamos, com horários. Bom, o primeiro almoço, tudo divino, ainda um pouco ‘travados’. A seguir fomos dar uma volta na fazenda com a Aya e já fomos reparando que não era bem assim, era tudo mais livre, na organização deles e não pertencíamos, pois éramos visitas. Interessante porque vimos que também respeitam a cultura alheia.  No passeio havia lugares nos quais tivemos que tirar o sapato,  tomamos assim contato com a cultura deles. Fomos para o teatro montar, eles estavam limpando tudo, combinamos de entrar sem sapatos também lá, Espaço sagrado. A história de terem destruído um cafezal, em 1960, para construir um teatro é demais, isto está impregnado lá, parece que tem a força e a paz intrigante da arte, muito fortemente nas estruturas simples. Aya então contou como foi o começo de tudo, quando os pais dela chegaram e o pai , que era ator e tudo mais no Japão, foi explicando para as pessoas como era e fazendo croquis, com o que tinham eles iam criando- até hoje agem assim, tudo que não precisa comprar e se pode fazer, melhor; assim eles fizeram luzes com latas, rotunda com a tecnologia de poço e por aí vai. Achei bárbaro. Chorei. Choramos. Contou também que lá secam as sementes, guardam os tratores, é um tipo de celeiro, quando não têm atividades, assim usam o espaço. Aya também contou do dia em que Sérgio Mambert esteve lá, sentou no fundo e chorou. A apresentação parecia que seria estranha, pela primeira vez na vida artística não senti um pingo de nervoso, acho que a paz está lá, pra sempre. A principal estranheza seria apresentar para um monte de gente que não falava a língua, surpreendentemente a conquista já se deu no cafezinho, aceitaram, agradeceram e ainda elogiaram, começou a magia. Foi lindo, entenderam o espetáculo, e só dos atores aparecerem lá nos fundos já bateram palmas, e várias vezes mais. Interagiram. Riram. No final agradeceram e admirei um casal que foi no ‘meu cantinho’ e fotografou até e olhou cada detalhe da minha construção. Após o espetáculo teve um chá e quando os atores entraram no refeitório foram aplaudidos de pé. Lindo de viver. Na oficina nova expectativa. Quase ninguém falava português, mas então foi pra lá de mágico. Compraram ‘com tudo’ os exercícios e participaram ativamente. Super lindo de ver: idosos, crianças, adultos, pais com crianças no colo. “Ah, para” – diria o Zé. No exercício da espalmada, deram um show. Dou destaque para um jovem, cujo nome não sei dizer, que fez como se fosse uma aula de kung fu e pôs suar seus parceiros da cena.Fizemos a ciranda com uma canção popular infantil deles e eles cantaram nossa lua. Fizemos compras na lojinha de cerâmica deles e no frezzer com produtos de fabricação própria. Destaco algumas pessoas com as quais me identifiquei: Clara, no apoio da cozinha e mega simpática e solícita, uma fofa. A dona Júlia que tem quase 70 anos e cuida da horta; com esposo e irmão. Demais!!! Contou como fazem pra tirar os bichos das folhas e evitar que deem nos tomates. Também que com sua aposentadoria paga aulas de música. Ela esteve INTEIRA na oficina, até hora que pediu desculpas porque ia aguar sua horta. Apaixonei-me por ela. Também por Hyo, que no dia do chá, contou-nos várias histórias e rimos muito. Eles são felizes, riem tempo todo e esta foi a maior lição. Vivermos cada dia como se fosse o último. Inesquecível.

_______________________________________________________

FAGNER RODRIGUES

A cura da alma!

A arte como alquimia para cura das mazelas da vida. Comer, rezar e amar; não o livro ou filme, e sim a vivência que tive na Comunidade Yuba. Nada que eu possa escrever aqui vai ser o bastante para representar o que vivi. Tudo era diferente, o cheiro, a textura, a língua, o tempo, tudo era delicado, o encontro com o novo e ao mesmo tempo milenar, uma sensação de suspensão me impregnava. Como é simples viver. O que nos falta, diria Guimarães, é a coragem! Coragem pra viver sem os rótulos, as marcas, o monetário, o patrão, o empregado, coragem para compartilhar conhecimento e encantamento, o respeito às diferenças que, de tão distintas, nos faz iguais. Na arte não teve essa barreira: a maioria da platéia de olhos puxados em alerta, não entendia nada que era falado pelos atores, mas compreendiam com maestria e saber os movimentos, cores e sons. Uma fazenda com um teatro com mais de 50 anos. Tiveram a coragem de cortar pés de café para construir um teatro lindo, com o pé na terra. Enxadas, grãos, tratores e atores dividem harmonicamente o mesmo espaço. Eu voltei modificado, repensando tudo e todos. Obrigado, mil vezes obrigado, nunca vou esquecer essa vivência, na terra do sol poente onde se deseja somente a vida com arte e alegria, num lugar com mato verde pra plantar e pra colher. Queria escrever mais, muito mais; não dou conta. Tem coisas que não cabem nas palavras ou no papel, pois elas chegaram em mim como o vento.

_______________________________________________________

ÍCARO NEGRONI

Paz de espírito… Talvez essa seja uma das maneiras de traduzir o que essa experiência me trouxe. Incrível presenciar um povo que mantém sua cultura fazendo com que as novas gerações não percam a sua essência. Recepção melhor não existiria. Esse contato direto com a natureza, a terra, o alimentar-se com comidas saudáveis e produzidas por eles próprios nos faz repensar de que maneira estamos conduzindo a nossa vida, o que estamos fazendo com a nossa cultura? O que estamos deixando para as novas gerações? Tenho certeza que mesmo uma pequena parte de todos nós foi tomada por esse sentimento e sim, faremos a nossa parte nessa história. A apresentação foi incrível. Tivemos uma platéia deliciosa. De início fiquei um pouco apreensivo por conta da compreensão, mas a magia da arte não permitiu que houvesse problema algum nesse aspecto. Vivemos, convivemos, sentimos, emocionamos, nos emocionamos e, enfim, a única coisa tenho a dizer de tudo isso: ありがとうございます、すぐにあなたを参照してください YUBA.

_______________________________________________________

LAISA ANSELMI

A sensação de ir pra o desconhecido. Expectativa, ansiedade, curiosidade e até medo. Chegamos à comunidade Yuba e esta era a primeira sensação. Logo tudo foi passando e no fim as sensações foram substituídas por admiração e encantamento. Convivemos com outra cultura, conhecemos pessoas que têm a vida resumida naquele lugar e isso basta pra elas, o simples está sempre presente. E foi a partir da simplicidade que ali, naquele lugar, foi erguido um teatro, em meio a terra, entre a horta e a plantação de arroz, sobre a antiga plantação de café, ali vi sonho, vi vontade, um espaço cênico que eles consideram sagrado, há respeito, amor, paz.

Naquele lugar não vi o luxo de cortinas de veludo, camarins equipados, iluminações poderosas, ali latas se transformaram em refletores, troncos viraram alicerces, me senti pequena e honrada. Naquele momento fui tocada olhando toda aquela estrutura na minha frente – realmente não era difícil se emocionar, vivemos hoje em meio a protestos, a movimentos políticos e críticos para a valorização da cultura, vemos brigas e mais brigas sendo compradas pela falta de estrutura e descaso com a mesma, tudo parece tão difícil… Mas ali, naquele cantinho escondido vi o que a força de vontade, o que a união de mãos humanas é capaz de fazer, e percebi que ainda temos muito que aprender.

Grata! Assim me sinto por poder aprender, conviver, conhecer esse povo que já se fez tão nosso pela vivência, pelos dias que se tornaram intensos, pelos olhares que, nesse caso mesmo “diferentes” cantaram a lua com a gente.

Caberia ainda completar o texto com outras tantas falas bonitas, mais desta vez me calo aqui, pois em mim ainda reverberam as lembranças daqueles dias, que até por um pouco de egoísmo prefiro que continuem comigo, em mim.

Àquele povo encantador de Yuba só posso dizer “ARIGATÔ, DOMO ARIGATÔ!”

_______________________________________________________

NETO CHIACCHIO

Todo começo é difícil mesmo, a gente sabe, seja ele em pensamentos e ações, ler e escrever , acordar e deitar , dar e receber. O que é natural da vida, de nossa natureza , um julgamento natural que naturalmente brota em pensamento, questionamentos prévios dos seres naturais da natureza humana. Redundante, né? É normal, não nos culpe por isso. Mas fará sentido ao saberem como foi no “local da flecha”. Conhecida assim a comunidade Yuba, de mesmo átrio da cidade de Mirandópolis. Aprendi mais sobre viver e conquistar antes de julgar. Uma comunidade no campo seria o título dado a esse meu ganho.

Fomos com a ideia de que tudo se resumia a regras: são japoneses, são disciplinados, são muito rígidos. Como somos desinformados de outras culturas… A única regra que havia no deslumbrante local era simples e despercebida por começo, de simples aparência, a regra que havia de ter: amor. Amor que se funde com “Compreensão”, “Somos de todos , e todos somos nós”, “O que faz bem pra mim , faz você”, ajudar, entender, sorrir, sentir, viver, dar sem receber, trocar, ter fé e agradecer pelo pão que todos e com tudo ali colocou.

Sábios seres humanos são aqueles que não julgam, que conquistam o espaço fazendo assim merecidamente, receber a entrada do “céu que une nossos corações”. Com orgulho falo por todos, que foi sem esforço algum que fomos presenteados com abraços igual de “pai e mãe”, o laço foi estabelecido, o julgamento esquecido e, assim, a ligação concluída.

Cama quentinha, com barulhos que se resumiam a cantos de passarinhos, sapos, grilos e um leve vento macio que soprava na janela de madeira. É em poucos lugares que se sente tal comunhão ao romper da aurora, com som leve que se pouco ouvia ecoado aos chifres de “soberanos” avisando-nos de que a mesa posta, com carinho, esperava-nos pela oração em agradecimento com todos, com a mesma regra de sempre, venham e sirvam-se á vontade, sua satisfação é a nossa.

Todo encontro era celebração, e havia mais uma regra, sabe qual? Ao voltarem de seus afazeres, esqueçam o que estavam fazendo, esse é outro momento também de felicidade em outro tempo. Esbanjem sorrisos, meus caros, olhem nos olhos, vejam, sonhem e aproveitem que aqui também somos sabiás e “sinhá” também é “Sinhana”.

_______________________________________________________

SIMONE MOERDAUI

Que gente é essa vinda do outro lado do mundo à procura de um tempo-espaço que abriga novas possibilidades de vida? Ainda a caminho da Comunidade Yuba, o que esperava era o sagrado. E assim foi. Porque é sagrado o trabalho segundo suas afinidades e potencialidades. É sagrado permitir que delicadas mãos façam brotar da terra o pão comum. Sagrado fazer do cafezal, teatro reinventado, já que é também a arte – o fazer arte – essência dos sagrados dias. Sagrada a sabedoria no emprego da moeda: o ganho com o que se vende é comunitário e usado conforme as necessidades: médicos, vestimentas, óleo, farinha. Sagradas as necessidades, pois genuínas. Sagrado o tentar fazer antes que se compre pronto. Sagrados, para os Yuba, os encontros, de onde as transformações, o saltar adiante.

No passeio pela comunidade, nas refeições de apurados sabores, nas orações, nas trocas de sorrisos e olhares, nos abraços, tudo encontro. Pela primeira vez apresentamos Sabiás a um público formado, em boa parte, por pessoas de língua diversa, mas de comum humanidade. Extasiados por uma comunicação plena, fomos felizes. No workshop estavam presentes os que manejam enxadas, os que colhem os frutos, os que modelam o barro, os que preparam o alimento, os que pisam a terra, os viajantes, os que bebem, os que tocam instrumentos, os que fazem as contas, os que dançam, os que nasceram há pouco, os que aqui estão há muito, os que não perdem de vista a sua história, porque a arte não é, absolutamente, privilégio de alguns.

Obrigada venerável Aya, obrigada venerável Comunidade Yuba pela oportunidade de ver, sentir e viver outro mundo possível, por mim tão sonhado.

Não é pouco o que temos a aprender com vocês, aqui “do outro lado”.

Que sua força esteja sempre.

_______________________________________________________

VANESSA PALMIERI

Quando eu era criança costumava cavar um buraco no chão, pensando que ia chegar ao Japão. Isso foi há um minuto, e desde então se passaram 20 anos. O que eu me tornei nesse tempo? O que eu estava fazendo que não vi o tempo passar?

Querendo ou não, um dia a gente se rende ao sistema. Nas obrigações, nos impostos, nas imposições, nas posições, nas ambições. Esquecer-se do simples é alienar-se da nossa individualidade, das nossas convicções. É esquecermo-nos de nós mesmos.

Sistema buzina banco trabalho celular apito semáforo conta e-mail trânsito fumaça ruga alergia mosquito asfalto seca agrotóxico automático campainha olheira cansaço economia poluição política opiniões fobias homo hétero conectividade coleiras venenos canos fios papéis lixo touch vírus foco esgoto extinção ceticismo fanatismo poeira sapatos.

Tanta impureza.

Do outro lado do buraco descobri água da fonte, fruta no pé, estrela cadente, caminho de flores, céu aberto, ar fresco e puro, comida sem veneno, pés descalços, maracujá doce, reza antes da refeição, tranqüilidade, cheiro de terra, canto de passarinhos, arte em pedra. Um encontro.

Duas pedras se apontam: de um lado a Cia. Cênica, do outro a Comunidade Yuba. A diferença dos olhos e da pele não foi maior do que semelhança do sorriso, do respeito, das lutas por ideais compartilhados. Nem o idioma foi problema, aliás, quando é mesmo que as palavras são realmente necessárias? Na arte é que não é. Entendemo-nos no teatro, na oficina e na mesa. Porque na verdade o que nos une a todos são as diferenças.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0 Comments

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.